Uma doença capaz de reduzir em mais de 70% a produtividade da soja quando não controlada a tempo. É esse o risco que está por trás do não cumprimento de uma das exigências mais importantes do calendário agrícola: o vazio sanitário da soja, período em que fica proibida a presença de plantas vivas da cultura nas lavouras do estado, incluindo as plantas voluntárias, conhecidas como "tigueras". Em 2026, a medida vai de 27 de junho a 24 de setembro, conforme determinação da Agrodefesa de Goiás, e tem como principal objetivo interromper o ciclo de sobrevivência do fungo causador da ferrugem asiática, reduzindo a quantidade de inóculo disponível de uma safra para a outra.
A ferrugem asiática é considerada uma das doenças mais preocupantes para a soja justamente pela velocidade com que se dissemina e pelo potencial de dano que provoca. As lesões causadas nas folhas comprometem o metabolismo da planta, levando à desfolha precoce, ao enchimento incompleto dos grãos, à maturação antecipada e, consequentemente, à redução da produtividade. Em condições de temperatura amena e alta umidade, a doença pode evoluir rapidamente, já que os esporos do fungo se disseminam com facilidade pelo vento e têm alta capacidade de multiplicação.
Segundo o professor da Universidade de Rio Verde (UniRV), Dr. Alessandro Guerra da Silva, o vazio sanitário é uma das estratégias mais importantes para a sustentabilidade da sojicultura. Ao reduzir a pressão inicial da doença no início da safra, a prática diminui o número de aplicações necessárias de fungicidas, reduz os custos de produção e prolonga a eficiência dos próprios produtos, já que retarda a seleção de populações do fungo resistentes aos princípios ativos utilizados. “A eliminação de plantas vivas durante o período do vazio sanitário interrompe o ciclo biológico do patógeno, que depende de tecido vegetal vivo para sobreviver e produzir novos esporos. Com isso, no início da safra seguinte, a quantidade de esporos capazes de infectar as primeiras lavouras é significativamente menor. Ainda assim, a medida não elimina por completo a doença, uma vez que os esporos podem ser transportados por longas distâncias, vindos de outras regiões produtoras. Por essa razão, o vazio sanitário precisa estar associado a outras práticas de manejo integrado, como semeadura na época recomendada, monitoramento constante das lavouras, uso racional de fungicidas e rotação de mecanismos de ação”, explica.
O professor completa que, sem essa interrupção, as plantas remanescentes manteriam o patógeno vivo durante todo o ano, fazendo com que a ferrugem asiática surgisse mais precocemente nas lavouras na safra seguinte. Isso obrigaria os produtores a anteciparem as pulverizações, elevando os custos e ampliando o risco de perdas de produtividade, efeito que tende a ser ainda mais acentuado em regiões de grandes áreas contínuas de cultivo, como o Sudoeste goiano. “A falta de cumprimento do vazio sanitário tende a aumentar o número de pulverizações e o uso de fungicidas, elevar os custos operacionais, reduzir a produtividade e a rentabilidade dos produtores, além de ampliar o risco de resistência do fungo aos defensivos. Como Goiás está entre os maiores produtores nacionais de soja, perdas expressivas na lavoura repercutem em toda a cadeia produtiva: cooperativas, armazenadoras, indústrias de processamento e exportações, afetando inclusive a arrecadação do estado”, analisa.
Alessandro destaca ainda o papel da pesquisa científica no aperfeiçoamento dessas estratégias de manejo, por meio de estudos epidemiológicos sobre a sobrevivência do fungo, da definição da duração mais adequada para o vazio sanitário, do monitoramento da resistência aos fungicidas, do desenvolvimento de modelos de previsão da doença e da avaliação de cultivares mais tolerantes. Nesse contexto, a Universidade de Rio Verde desenvolve pesquisas voltadas ao manejo da ferrugem asiática, testando fungicidas e tecnologias de produção adaptadas à realidade do estado. Diversos trabalhos de graduação e pós-graduação, conduzidos sob orientação do Prof. Dr. Hércules Diniz Campos, têm avaliado a eficiência de fungicidas, o estabelecimento de programas de aplicação, a interação entre cultivares e doenças, o manejo integrado da ferrugem e tecnologias voltadas à sustentabilidade da produção.
Pesquisa de longa data na UniRV
O Prof. Dr. Hércules Diniz Campos pesquisa a ferrugem asiática da soja desde a chegada da doença ao Brasil, no início dos anos 2000. Segundo ele, nas primeiras safras após o surgimento da ferrugem no país ainda não havia conhecimento suficiente sobre formas efetivas de controle, nem mesmo sobre quais fungicidas utilizar. Com o avanço dos estudos, foi possível identificar os ingredientes ativos mais eficientes e definir estratégias de manejo mais precisas, como o momento correto para iniciar as aplicações, o número de pulverizações e os intervalos entre elas.
Um dos principais desafios, explica o professor, é a alta variabilidade genética do fungo causador da ferrugem, que favorece o surgimento de populações resistentes aos fungicidas. Para contornar o problema, um dos avanços mais importantes foi a adoção de fungicidas multissítios em associação aos fungicidas tradicionais, combinação que ajuda a preservar a eficiência dos produtos e a retardar o processo de resistência do fungo.
Sobre o vazio sanitário, Hércules reforça que a medida foi um dos principais avanços no manejo da doença. “Como o fungo depende de plantas vivas para sobreviver, as plantas que permanecem na área após a colheita funcionam como uma espécie de "ponte verde", mantendo o inóculo ativo para a safra seguinte e é justamente essa ponte que o vazio sanitário interrompe”, explica. O professor destaca ainda a importância de concentrar o período de semeadura: quando os plantios ficam muito espaçados ao longo do tempo, em razão da irregularidade das chuvas, por exemplo, as áreas mais avançadas podem servir de fonte de inóculo para lavouras mais novas. Por isso, a recomendação é semear o mais cedo possível, sempre que as condições climáticas permitirem, com cultivares adaptadas à região, estratégia que favorece o escape da doença e reduz a necessidade de aplicações adicionais de fungicidas.
Esses resultados são obtidos por meio de pesquisas conduzidas em parceria com instituições de todo o Brasil, especialmente por meio do Consórcio Antiferrugem e da Rede Fitossanitária, dos quais o professor participa desde o início e que atualmente atua em conjunto com pesquisadores da Embrapa e de outras instituições. Apenas para a ferrugem asiática, são conduzidos em média mais de 20 ensaios por safra em diferentes regiões do país, com resultados consolidados por equipes especializadas em epidemiologia e estatística, o que garante consistência científica às informações e explica o número expressivo de citações que esses trabalhos recebem em publicações técnicas e científicas.
Além da ferrugem asiática, a equipe também estuda outras doenças relevantes para a soja, como as doenças de final de ciclo, a exemplo da mancha-alvo, o mofo-branco e as podridões de grãos, além de pesquisas sobre controle biológico e indutores de resistência como alternativas complementares ao uso de fungicidas.
Para ampliar o acesso a esses resultados, até então divulgados principalmente por meio de publicações da Embrapa, a Rede lançou recentemente a
Rede Fitossanidade Tropical, plataforma digital de acesso aberto e alcance nacional e internacional, que reúne publicações técnicas, artigos científicos, entrevistas e materiais voltados ao manejo de doenças e pragas, incluindo conteúdos em linguagem mais acessível ao produtor rural. A UniRV é uma das instituições colaboradoras da iniciativa.
A formação de novos pesquisadores também faz parte desse trabalho, ao longo dos últimos anos, dezenas de acadêmicos da UniRV participaram dos projetos, com uma média de cinco a dez estudantes envolvidos diretamente nas pesquisas por ano. Somente os trabalhos vinculados à Rede Fitossanitária resultam em cinco a oito publicações anuais, entre comunicados técnicos, circulares técnicas e materiais voltados ao setor produtivo.
Conforme o Reitor da UniRV, Prof. Dr. Alberto Barella Netto, a UniRV tem compromisso histórico com o agronegócio goiano e as pesquisas conduzidas aqui mostram a importância da Universidade na geração de conhecimento aplicado diretamente à realidade do produtor rural. “O trabalho desenvolvido ao longo de mais de duas décadas no estudo da ferrugem asiática é um exemplo de como a ciência produzida aqui dentro contribui para a sustentabilidade da produção de soja em Goiás e no Brasil. Reforçamos nosso papel de aproximar a pesquisa científica do campo, formando profissionais qualificados e entregando soluções que fazem diferença na vida do produtor", conclui.
Equipe ASCOM UniRV
Jornalista Jessica Bazzo – MTE 3194/GO
Arte: Vinicius Macedo
Foto: Sistema Faeg/Senar