A Arquitetura e Urbanismo desempenha um papel fundamental na transformação dos espaços, contribuindo para o desenvolvimento das cidades, a qualidade de vida da população e a preservação do patrimônio histórico e ambiental. Em um mercado em constante evolução, impulsionado por novas tecnologias, práticas sustentáveis e mudanças nas demandas da sociedade, a carreira oferece diversas possibilidades de atuação. Nesta reportagem, o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Rio Verde (UniRV), Dr. Rodrigo Camargo Moretti, apresenta um panorama sobre a formação acadêmica, os desafios da profissão, as tendências do mercado e as oportunidades para quem deseja construir uma trajetória de sucesso na Arquitetura e Urbanismo.
Segundo ele, quando se fala em Arquitetura e Urbanismo, ainda é comum para a maioria das pessoas, imaginar um profissional desenhando edifícios ou acompanhando obras. Entretanto, a história da área acompanha a própria história da civilização e revela um campo de atuação muito mais amplo, complexo e profundamente conectado às transformações da sociedade. “Desde as primeiras cidades da Antiguidade, profissionais responsáveis pelo planejamento de templos, monumentos, habitações e espaços coletivos desempenharam papel fundamental na organização do território e na vida em comunidade. Ao longo dos séculos, a arquitetura incorporou conhecimentos técnicos, artísticos, sociais e ambientais, consolidando-se como uma área capaz de integrar criatividade, responsabilidade social e tecnologia.”
Rodrigo comenta que hoje, a Arquitetura e Urbanismo ultrapassam amplamente a concepção de edifícios isolados. “O arquiteto e urbanista atua na interface entre técnica, cultura, arte, ciência, tecnologia e sociedade, contribuindo para a criação de ambientes mais funcionais, inclusivos, sustentáveis e humanizados. E compreender essa atuação significa reconhecer o impacto que os espaços exercem sobre a vida das pessoas, sobre a construção das cidades e sobre as formas contemporâneas de viver, trabalhar e conviver.”
O Professor compartilha, parafraseando o arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha, afirmando que a arquitetura constitui, antes de tudo, uma forma de conhecimento sobre a cidade e sobre a vida humana, reforçando a ideia de que projetar não significa apenas desenhar edifícios, mas compreender as relações sociais, culturais e ambientais que estruturam o território urbano.
Sobre o campo profissional, Rodrigo comenta que é vasto e diversificado. “Alguns arquitetos dedicam-se ao desenvolvimento de projetos arquitetônicos para residências, edifícios comerciais, hospitalares, educacionais, religiosos e institucionais. Outros voltam seu olhar para o planejamento urbano e regional, participando da concepção de bairros, parques, praças, sistemas de mobilidade e estratégias de desenvolvimento territorial. Há ainda, aqueles que atuam na preservação do patrimônio cultural, protegendo memórias, paisagens e centros históricos para as futuras gerações e refletindo criticamente sobre as relações entre projeto, técnica e construção.”
Para exemplificar um pouco sobre o campo de atuação, o Docente compartilha um pouco sobre Lina Bo Bardi e sua contribuição, ao defender uma arquitetura capaz de dialogar com a cultura popular, os saberes construtivos tradicionais e as necessidades concretas da população. “Sua atuação em obras como o SESC Pompeia demonstra como a arquitetura pode transformar antigas estruturas industriais em espaços de convivência, cultura e cidadania, ao mesmo tempo em que reconhece o valor do trabalho manual e do conhecimento produzido no canteiro de obras.”
Em relação a história da arquitetura brasileira, o professor da UniRV o traz um panorama de quem constrói a arquitetura e para quem ela é construída. “Durante grande parte do século XX, a arquitetura moderna consolidou a figura do arquiteto como autor intelectual do projeto, enquanto o canteiro de obras permanecia como espaço de execução, frequentemente invisibilizado e marcado por relações hierárquicas de trabalho. Foi precisamente essa separação entre quem desenha e quem constrói que o arquiteto Sérgio Ferro transformou em objeto de crítica em O Canteiro e o Desenho.”
Segundo Rodrigo, no livro do arquiteto, o desenho arquitetônico moderno frequentemente atua como instrumento de controle e fragmentação do trabalho, retirando dos trabalhadores do canteiro o domínio sobre o processo construtivo e transformando-os em executores de tarefas cada vez mais parceladas, onde o canteiro deixa de ser um espaço de produção coletiva de conhecimento para tornar-se um ambiente de subordinação técnica e econômica, e a arquitetura, nesse sentido, não pode ser compreendida apenas como linguagem formal ou objeto estético, mas como expressão concreta das relações sociais de produção.
O Docente menciona que embora Lina Bo Bardi não compartilhasse integralmente das formulações teóricas de Sergio Ferro, parte significativa de sua obra aproxima-se dessa crítica ao buscar uma arquitetura menos distante dos saberes populares, dos processos construtivos locais e das formas coletivas de produção do espaço. “Nenhum exemplo é tão emblemático quanto a Igreja Espírito Santo do Cerrado, construída entre 1976 e 1982 em um bairro popular da periferia de Uberlândia. Diferentemente da monumentalidade frequentemente associada à arquitetura religiosa, Lina propõe um conjunto simples, construído com tijolos aparentes, técnicas acessíveis e soluções profundamente conectadas às condições materiais e culturais do lugar. E mais importante que a solução formal foi o próprio processo de produção da obra, pois a construção envolveu intensa participação da comunidade local, que contribuiu não apenas como mão de obra, mas como agente ativo na construção do espaço coletivo, e o edifício deixa de ser um objeto entregue à população e passa a ser produzido juntamente com ela.”
Ao estabelecer um diálogo entre a produção arquitetônica de Lina Bo Bardi e as reflexões teóricas de Sérgio Ferro, o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo explana que se pode observar uma convergência quanto à valorização do trabalho coletivo e do saber construtivo presente no canteiro de obras. “Sob esse aspecto, a igreja projetada por Lina Bo Bardi aproxima-se das reflexões de Sérgio Ferro sobre a valorização do conhecimento presente no canteiro e sobre o reconhecimento do trabalho construtivo como prática intelectual e criativa. O pedreiro, o carpinteiro, o mestre de obras e os demais trabalhadores deixam de ocupar posição secundária na produção arquitetônica para serem reconhecidos como participantes efetivos do processo de criação.”
A formação em Arquitetura e Urbanismo
A formação em Arquitetura e Urbanismo na UniRV prepara profissionais para atuar em diferentes frentes do planejamento, da concepção e da gestão dos espaços urbanos e das edificações. Segundo o professor, a formação universitária acompanha esses aspectos da profissão. “O curso de graduação articula atividades teóricas, técnicas e práticas desde os primeiros períodos, envolvendo projeto arquitetônico, urbanismo, representação gráfica, história da arte e da arquitetura, tecnologia das construções, conforto ambiental, paisagismo e ferramentas digitais de projeto. O exercício profissional também se estende aos canteiros de obras, ao gerenciamento e fiscalização, às consultorias, perícias técnicas, pesquisa científica e docência. E na UniRV, ensino, pesquisa e extensão são integrados para aproximar os estudantes das demandas da sociedade e dos desafios do desenvolvimento urbano contemporâneo.”
O Docente reforça que o curso de Arquitetura e Urbanismo é mais do que uma formação técnica, pois a graduação constitui uma jornada de descobertas sobre as cidades, sobre as pessoas e também sobre si mesmo. ”Ao longo desse percurso na graduação, os estudantes percebem que projetar vai muito além de desenhar edifícios. É preciso interpretar contextos, formular perguntas e encontrar respostas para problemas complexos e concretos. E a criatividade permanece como uma das grandes ferramentas do arquiteto e urbanista, caminhando lado a lado com a capacidade analítica e o pensamento crítico.”
Além disso, Rodrigo acrescenta que cada projeto desenvolvido durante a jornada acadêmica, exige dos acadêmicos observar, investigar, compreender relações e tomar decisões capazes de impactar diretamente a vida das pessoas e a forma como ocupamos e transformamos os espaços. E que a sensibilidade para compreender necessidades, desejos e modos de viver torna-se igualmente essencial, afinal, a arquitetura não é feita apenas de materiais e estruturas, mas também de experiências, memórias e encontros.
Sobre o mercado de trabalho brasileiro, o especialista menciona que reflete essa complexidade. “Escritórios de arquitetura, coletivos de arquitetura, incorporadoras, construtoras, empresas de engenharia, órgãos públicos, institutos de planejamento, organizações do terceiro setor, consultorias especializadas e empresas de tecnologia compõem um ecossistema profissional cada vez mais interdisciplinar, e nesse cenário, o arquiteto é chamado a atuar como mediador de interesses sociais, agente de transformação territorial e profissional capaz de integrar inovação tecnológica e gestão urbana.”
O professor chama atenção para os desafios históricos relacionados ao déficit habitacional, à expansão periférica das cidades, à precariedade da infraestrutura urbana, à mobilidade, às mudanças climáticas e à preservação do patrimônio cultural no Brasil, que ampliam continuamente a relevância social da profissão. Ele ressalta que temas como adaptação climática, infraestrutura verde, eficiência energética, acessibilidade universal e resiliência urbana deixaram de ser complementares para se tornarem centrais na prática profissional contemporânea.
Outro ponto destacado pelo professor é sobre as crescentes demandas relacionadas ao retrofit, à recuperação de edifícios existentes, à preservação e restauração do patrimônio histórico e à requalificação de áreas urbanas consolidadas. “Em um país majoritariamente urbano, o planejamento territorial assume papel estratégico na formulação de políticas públicas e na redução das desigualdades socioespaciais. E as transformações tecnológicas também remodelam a profissão. Ferramentas BIM, modelagem paramétrica, manufatura digital, georreferenciamento, sensoriamento remoto, inteligência artificial e análise de dados urbanos passam a integrar a rotina dos escritórios e dos órgãos de planejamento, onde o domínio dessas tecnologias tende a constituir importante diferencial competitivo para os futuros profissionais.”
Segundo Rodrigo, compreender a profissão exige também reconhecer seus desafios, e investir na formação continuada é desenvolver competências de mercado. “A inserção profissional frequentemente ocorre em ambientes marcados por elevada competitividade, vínculos flexíveis e remunerações bastante variáveis entre regiões e segmentos de atuação. Nesse contexto, formação continuada, experiência prática, competências digitais e capacidade de articulação interdisciplinar tornam-se elementos decisivos para a construção da trajetória profissional. “
Mercado de atuação
O mercado de trabalho para arquitetos e urbanistas é amplo e acompanha as transformações das cidades, da construção civil e das demandas da sociedade. Além da atuação em projetos arquitetônicos, a profissão oferece oportunidades em diferentes áreas, tanto no setor público quanto na iniciativa privada. Sobre as demandas do atual mercado, o Professor comenta que talvez uma das áreas mais importantes e menos conhecidas pela sociedade seja a Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS), instituída pela Lei Federal nº 11.888/2008.
“A ATHIS parte de um princípio simples e poderoso: arquitetura de qualidade não deveria ser privilégio das camadas de maior renda, mas um direito de toda a população brasileira. E as reflexões sobre o direito à cidade encontram importante fundamentação em Henri Lefebvre e sua obra clássica O Direito à Cidade. O conceito tornou-se referência internacional para políticas urbanas, movimentos sociais e discussões sobre acesso democrático aos espaços urbanos.”
Sobre essas políticas públicas, o Docente compartilha que a dimensão política do espaço urbano foi profundamente discutida pelo geógrafo brasileiro Milton Santos em obras como A Natureza do Espaço e Por uma Outra Globalização, fundamentais para compreender as desigualdades socioespaciais presentes nas cidades brasileiras e os efeitos da urbanização contemporânea na saúde das coletividades.
“Sob esse aspecto, a atuação do arquiteto guarda paralelos com a lógica que estrutura o Sistema Único de Saúde. Assim como médicos e enfermeiros atuam na promoção do direito universal à saúde, arquitetos e urbanistas podem atuar na promoção do direito à moradia adequada, à segurança construtiva, ao saneamento, à acessibilidade e à qualidade do ambiente construído. Afinal, qualidade de vida não depende exclusivamente de tratamentos médicos, mas também das condições físicas dos espaços onde as pessoas vivem. Moradias insalubres, ausência de ventilação e iluminação adequadas, riscos estruturais e precariedade urbana produzem impactos diretos sobre indicadores de saúde, educação e desenvolvimento social.”
Em uma outra abordagem da profissão, Rodrigo reforça que arquitetos e urbanistas se aproximam das artes visuais e da indústria cultural, participando da concepção de cenografias para teatro, televisão, cinema e eventos culturais. “Com o avanço das tecnologias digitais, essa atuação passou a incluir cenários virtuais, modelagem tridimensional, ambientes imersivos, realidade virtual e produção audiovisual. Arquitetos participam da construção de mundos físicos e digitais, aproximando-se das indústrias do cinema, da animação, dos jogos eletrônicos e dos efeitos visuais.”
Além disso, o Professor destaca que a arquitetura efêmera constitui outro território fértil de experimentação. “Pavilhões temporários como estruturas arquitetônicas voltadas para as Olimpíadas ou para a Copa da FIFA frequentemente funcionam como laboratórios de inovação espacial. Contudo, essas transformações urbanas nem sempre acompanham a solução dos problemas sociais ou ambientais. No debate internacional sobre sustentabilidade e responsabilidade ambiental, destacam-se as contribuições de Kenneth Frampton em História Crítica da Arquitetura Moderna, bem como as reflexões de Jan Gehl em Cidades para Pessoas, que recolocam a escala humana e a experiência cotidiana no centro do planejamento urbano.”
Sobre a escolha da Arquitetura e Urbanismo, o Docente comenta que essa escolha significa aceitar um certo desconforto diante do mundo como ele é. “Depois da graduação, torna-se difícil atravessar uma cidade sem perceber desigualdades espaciais, rios canalizados, praças abandonadas, edifícios vazios ao lado do déficit habitacional e pessoas vivendo em condições incompatíveis com a dignidade humana. Por isso, talvez a primeira pergunta não seja se você gosta de desenhar, projetar ou construir maquetes. A pergunta mais importante é outra: você está disposto a observar criticamente as cidades e a se incomodar com elas?”
Rodrigo reforça que a Arquitetura e Urbanismo são profissões criativas, mas também profundamente políticas, ainda que não partidárias. ”Decidir onde construir, quem terá acesso a determinados espaços, quais memórias preservar e quais territórios priorizar envolve escolhas sociais, econômicas e ambientais que afetam diretamente a vida das pessoas. O mercado frequentemente tentará convencer os futuros profissionais de que arquitetura é apenas estética, consumo e imagens espetaculares para revistas e redes sociais. As cidades brasileiras, entretanto, insistem diariamente em lembrar que arquitetura também é saneamento, habitação, mobilidade, acessibilidade, infraestrutura e justiça espacial.”
Quanto aos desafios da profissão, o Docente destaca que a formação do arquiteto e urbanista exige uma compreensão que vai além dos aspectos técnicos e estéticos do projeto. Para ele, o exercício da arquitetura está diretamente relacionado ao compromisso com as pessoas e com a transformação social. “Talvez poucas frases sintetizem tão bem os desafios contemporâneos da profissão quanto a conhecida reflexão de Oscar Niemeyer: ‘A vida é mais importante que a arquitetura’. Mais do que diminuir a importância da disciplina, a frase recorda aos futuros profissionais que edifícios, cidades e espaços só fazem sentido quando colocados a serviço das pessoas e da construção de uma sociedade mais justa, democrática e solidária. E talvez o maior desafio das próximas gerações seja justamente reduzir a distância entre a arquitetura produzida para poucos e a arquitetura necessária para muitos.”
Para finalizar, Rodrigo Moretto destaca que ao mesmo tempo, poucas carreiras permitem transitar com tanta liberdade entre arte e ciência, técnica e imaginação, patrimônio e inovação tecnológica. “A principal recomendação para quem deseja seguir esse caminho talvez seja cultivar a curiosidade intelectual como método de trabalho: caminhar pelas cidades, visitar exposições, compreender processos históricos, estudar tecnologia, economia, sociologia e meio ambiente. A arquitetura recompensa profissionais que fazem perguntas difíceis e desconfiam das respostas fáceis. Afinal, projetar significa aprender com o passado, imaginar futuros possíveis e decidir, todos os dias, que tipo de sociedade desejamos construir e para quem estamos construindo.”
Rodrigo Camargo Moretti é arquiteto, urbanista, artista visual e docente do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Rio Verde. Possui mestrado em História pela Universidade Federal de Uberlândia, com pesquisas dedicadas às relações entre patrimônio, memória e fotografia, e doutorado em Ciências, na área de concentração Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo, pelo Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU-USP).
Equipe Ascom UniRV
Jornalista Vanderli Silvestre - CRP 4126/GO
Arte: Vinicius Macedo