Um robô que entra em silos de grãos para evitar acidentes fatais, nanopartículas que aceleram a cicatrização de feridas na boca, peixinhos de poucos centímetros que substituem testes em mamíferos na hora de testar remédios e veículos autônomos que prometem tirar o diesel do campo. Quatro áreas, quatro propostas distintas, mas todas começaram no mesmo lugar: uma sala de aula ou um laboratório da Universidade de Rio Verde (UniRV).
Hoje, essas quatro ideias são startups incubadas na
YpeTec, a incubadora de empresas da UniRV: SiloBot Tecnologia, BioSilver, ZCore e Groubots nasceram de iniciações científicas, doutorados e projetos de extensão que, em algum momento, deixaram de caber só num artigo científico.
O que começou com um problema, virou uma empresa. Em comum, nenhuma das quatro startups nasceu já pensando em virar negócio, mas sim com uma inquietação diante de algum problema vivido na sociedade.
A SiloBot surgiu dentro do Grupo de Robótica da UniRV, liderado pelo Prof. Me. Daniel Fernando da Silva, a partir de um problema recorrente no agronegócio da região: os acidentes de trabalho dentro de silos de grãos. "Esse é um ambiente extremamente perigoso, onde ainda existe a necessidade de entrada de pessoas para fazer inspeções e outras atividades", explica o também professor da UniRV e sócio da SiloBot, Prof. Me. Giancarllo Ribeiro Vasconcelos. O silo esconde riscos de contaminação por gases, intoxicação e até engolfamento, quando o trabalhador é tragado pela massa de grãos, "quase como uma areia movediça". Dali surgiu a proposta de um robô que entra no ambiente, inspeciona, homogeneíza os grãos e manda os dados pros gestores, tirando o trabalhador de risco.
Seguindo o mesmo percurso e vindo também do Grupo de Robótica, a Groubots foi criada em 2018 para desenvolver veículos autônomos para espaços confinados e para a eletrificação de veículos urbanos. O rumo mudou quando o professor Daniel Fernando passou a dar aulas de máquinas agrícolas e a atuar em cursos do SENAR. "Percebi a necessidade de levar tecnologias sustentáveis ao campo, principalmente a grande necessidade do produtor reduzir a emissão de CO2 e se adequar às políticas de crédito de carbono e ESG", explica. Foi aí que nasceu a ideia de veículos autônomos que substituem máquinas agrícolas a diesel.
No âmbito da inovação em saúde, a BioSilver começou no doutorado da professora Sinara Mesquita Guimarães Tannus, que pesquisou o efeito de um gel de nanopartículas de ouro biossintetizadas com curcumina na cicatrização de feridas palatinas. Os resultados abriram uma porta: a convite do orientador, Dr. Paulo Silveira, a pesquisa avançou para o tratamento de superfície de implantes odontológicos com nanopartículas de prata biossintetizadas com curcumina (AgNPs-Cur). "A partir dessa ideia começamos a explorar tudo o que as AgNPs-Cur pode ajudar e melhorar os tratamentos odontológicos", diz a pesquisadora.
Também na área da saúde, a ZCore teve uma origem quase acidental. Foi na iniciação científica do acadêmico de Medicina Lucas Maia, orientado pela Profa. Dra. Dinaíza Abadia Rocha Reis Fernandes. "A pesquisa surgiu meio por acaso. Inicialmente, eu queria trabalhar com ovário/carcaça bovina, mas isso fugia da área da professora Dinaíza, que já trabalhava com peixes. Pesquisando se peixes poderiam ser usados em pesquisas humanas, encontrei o zebrafish e daí tudo começou", conta Lucas. O pequeno peixe se mostrou útil para diferentes frentes: toxicidade, triagem farmacológica, meio ambiente e inovação biotecnológica.
A virada de chave
Na SiloBot, a virada aconteceu junto com o crescimento do ecossistema de inovação em Rio Verde. "A gente passou a pensar: isso aqui pode sair do laboratório, pode virar uma solução real, pode atender o mercado e pode também virar negócio", relata Giancarllo.
Na Groubots, o insight veio do contato direto com o produtor. "Durante o contato com os produtores rurais quando fiz os cursos de operação e manutenção de máquinas agrícolas pelo SENAR", resume Daniel Fernando. O caminho também passou por editais: em 2024 a equipe conseguiu fomento no Desafio AgroStartup, e em 2025 foi premiada num hackathon na Tecnoshow.
Na BioSilver, veio a certeza de que o que funcionava em laboratório também funcionaria no consultório. "Percebemos que não se tratava apenas de gerar conhecimento científico, mas de transformar esse conhecimento em soluções capazes de chegar ao consultório e beneficiar pacientes e profissionais", conta Sinara.
Na ZCore, o motivo foi bem prático: o laboratório precisava de dinheiro para se manter. "A motivação para virar empresa surgiu quando percebemos que o laboratório precisava de um fluxo financeiro para se manter. Então, a pesquisa e a necessidade de sustentabilidade do laboratório acabaram se encontrando", acrescenta Lucas Maia. A professora Dinaíza completa lembrando que já existiam empresas usando o zebrafish para testes ambientais, mas dava pra ir além, oferecendo também consultoria científica e triagem de fármacos.
Dinheiro, equipe e tempo: os obstáculos de quem empreende na ciência
Em quase todas as falas, a maior dificuldade está em conseguir recursos e montar equipe.
Na SiloBot, que trabalha com robótica, sensores, eletrônica, inteligência artificial e validação em campo, o desafio é sobretudo financeiro. "Transformar conhecimento científico em inovação não depende só de ter uma boa ideia. É preciso ter equipe, tempo, estrutura, protótipos, testes e recursos para colocar essa solução de pé", diz o fundador, que menciona a concorrência alta por editais de subvenção econômica.
Na Groubots, o gargalo também foram os recursos humanos. "A maioria trabalha, estuda e possui outros trabalhos em áreas diferentes da proposta do projeto. Tivemos que adequar parte do tempo disponível ao projeto", conta Daniel Fernando.
Na BioSilver, o desafio foi outro: aprender uma linguagem que a formação acadêmica não ensina. "Transformar uma descoberta em um produto exige pensar em escalabilidade, regulamentação, propriedade intelectual, viabilidade comercial e gestão, áreas que normalmente não fazem parte da formação do pesquisador", diz Sinara.
Na ZCore, foi transformar uma boa ideia em operação de verdade. "Não basta ter uma boa solução e um bom delineamento experimental, é preciso montar equipe, estrutura, protocolos, documentação e compreender como fazer ciência se tornar uma solução para a sociedade de uma forma mais prática e rápida", diz a professora Dinaíza.
O papel da UniRV e da YpeTec
Nas quatro histórias, o apoio da Universidade aparece como a peça-chave que fez os projetos saírem do papel.
Para o fundador da SiloBot, a Universidade não contribui apenas como Instituição de ensino, mas como parceira no desenvolvimento da inovação. Giancarllo destaca o respaldo da YpeTec, do AgroHub, as mentorias e as conexões que ajudaram a alinhar a startup ao que o mercado espera.
Na Groubots, o incentivo começou antes mesmo da incubação, na estrutura física dos laboratórios, e seguiu na gestão do negócio. "A UniRV foi fundamental tanto no surgimento do projeto, oferecendo sempre a estrutura física dos laboratórios, quanto também na parte de gestão do negócio, mediante a incubação no AgroHub", afirma Daniel Fernando.
Sinara também credita à YpeTec um papel fundamental na trajetória da BioSilver, por meio do suporte das mentorias nas áreas de gestão, planejamento estratégico, contabilidade e desenvolvimento de negócios, apoio que ela descreve como essencial para virar empresa de base tecnológica.
Na ZCore, a avaliação é parecida. "A UniRV contribuiu e vem contribuindo de forma essencial, oferecendo um ambiente de incubação, infraestrutura e apoio institucional", diz a professora Dinaíza, que também cita o AgroHub como espaço de conexão entre ciência, empreendedorismo e impacto social. Lucas Maia complementa que a UniRV tem sido essencial nessa trajetória, pois oferece o ambiente acadêmico, a incubação, o suporte institucional, professores, estrutura e incentivo para transformar pesquisa em inovação.
O impacto que eles querem causar
A SiloBot mira a segurança de quem trabalha em unidades armazenadoras de grãos. "O principal impacto da SiloBot Tecnologia é aumentar a segurança das pessoas que trabalham em unidades armazenadoras de grãos e, ao mesmo tempo, melhorar a eficiência da armazenagem", diz o fundador, que também menciona a redução de perdas pros produtores e cooperativas.
A Groubots visa o campo. "A nossa tecnologia tem como objetivo diminuir os impactos ambientais gerados pelas máquinas agrícolas movidas a combustíveis fósseis", afirma Daniel Fernando, que também cita a redução do contato do trabalhador com defensivos agrícolas e a contribuição para políticas de ESG e pros ODS. O primeiro protótipo em testes operacionais é esperado para 2027.
A BioSilver aposta na nanotecnologia sustentável aplicada à Odontologia. "Esperamos oferecer soluções que reduzam infecções, favoreçam o reparo tecidual, diminuindo dor e desconforto ao paciente, e aumentem a longevidade de biomateriais utilizados na Odontologia", projeta Sinara.
A ZCore busca melhorias em saúde e no meio ambiente. "A solução pretende gerar impacto na área da saúde, por meio de maior rapidez e personalização na utilização de fármacos; no meio ambiente, por meio de biomonitoramento e busca de sustentabilidade ambiental; e na sociedade como um todo", explica a professora Dinaíza.
O que eles dizem para quem quer empreender
"Apaixone-se primeiro pelo problema, não pela solução", resume o fundador da SiloBot. Para Giancarllo, a inovação precisa dialogar com uma necessidade real, não só com o que parece interessante dentro do laboratório.
Daniel Fernando, da Groubots, aconselha ver além da pesquisa: "Transformem suas pesquisas em grandes projetos que possam contribuir diretamente com a sociedade. E não as deixem engavetadas”.
Sinara, da BioSilver, também compartilha da mesma opinião de Daniel: "Não enxergue a pesquisa apenas como um caminho para publicar artigos, mas também como uma oportunidade de transformar conhecimento em soluções que melhorem a vida das pessoas”.
Da ZCore, a professora Dinaíza reforça que dá para não ter a real dimensão de uma ideia logo no começo: "Buscar parcerias e auxílio com pessoas experientes faz toda a diferença". Lucas Maia completa: "A inovação nasce de um acaso, mas só se desenvolve quando a gente insiste, aprende com os desafios e transforma uma necessidade real em solução".
Missão da UniRV
Para o Reitor da UniRV, Prof. Dr. Alberto Barella Netto, a trajetória dessas iniciativas mostra o que a Universidade busca construir todos os dias. Segundo ele, a Instituição não separa ensino, pesquisa e extensão da inovação, mas enxerga esses pilares como parte de um mesmo compromisso com a sociedade. "Cada projeto que sai do laboratório e chega ao mercado reforça nosso papel de formar profissionais capazes de transformar conhecimento em soluções reais, gerando desenvolvimento para a região e impacto para as pessoas", afirma. O Reitor reforça ainda que a Universidade segue investindo em estrutura, incentivo e apoio institucional para que a ciência produzida internamente continue encontrando caminhos concretos de aplicação.
Equipe ASCOM UniRV
Jornalista Jessica Bazzo – MTE 3194/GO
Arte: Vinicius Macedo
Fotos: Arquivo Pessoal