Conciliar maternidade e carreira acadêmica ainda é um dos grandes desafios enfrentados por mulheres na ciência. Em meio às demandas por produtividade, pesquisa, orientação e docência, muitas pesquisadoras também carregam a responsabilidade do cuidado e da criação dos filhos. Mais do que celebrar trajetórias de destaque, reconhecer essa realidade significa ampliar o debate sobre permanência, apoio institucional e ambientes acadêmicos mais humanos.
Iniciativas recentes, como a inclusão de informações sobre filhos na Plataforma Lattes e o Programa Aurora, representam avanços importantes na valorização dessas trajetórias, sem reforçar a ideia de que mulheres precisam "dar conta de tudo", mas reconhecendo os desafios reais de quem vive os dois mundos ao mesmo tempo.
Neste Dia das Mães, a UniRV ouviu pesquisadoras que são mães e seguem contribuindo para a ciência, a formação acadêmica e a produção de conhecimento.
Rose Luiza Moraes Tavares - Engenheira Agrônoma, pesquisadora em Ciência do Solo.
Mãe do Bernardo, 1 ano e 3 meses.
A maternidade sempre foi um desejo de Rose, mas o caminho até ela não foi simples. Por três anos, tentou engravidar naturalmente, sem sucesso, até recorrer à fertilização assistida. Na segunda tentativa, veio o Bernardo.
Mãe recente, Rose concedeu esta entrevista depois que fez Bernardo dormir, ela ainda está em processo de adaptação e não esconde que conciliar os papéis de mãe, esposa, professora e pesquisadora exige organização constante. "Tento programar as atividades com antecedência, criando uma escala de prioridades que atenda às demandas de casa e do trabalho", conta. A flexibilidade de horários oferecida pela UniRV é, segundo ela, fundamental para que esse equilíbrio seja possível.
Para Rose, a maternidade também transformou sua relação com o tempo. "Ela me ensinou a aproveitar de forma mais eficiente o tempo disponível”, relata. Na pesquisa, essa eficiência se traduz em persistência: todos os trabalhos iniciados são, em algum momento, concluídos e publicados. "Quando você gosta do que faz, o trabalho deixa de ser oneroso e se torna prazeroso”, salienta.
Sobre as iniciativas de visibilidade materna na ciência, Rose é direta: "É um mérito finalmente reconhecido. A maternidade exige muito mais do que a vida profissional, e as iniciativas que enxergam isso merecem aplausos”, afirma.
Camila Jorge Bernabé Ferreira - Engenheira Agrônoma, Doutora em Solos.
Mãe do Davi, 8 anos, e do Bento, 3 anos.
A maternidade sempre foi o maior sonho de Camila. Vivê-lo enquanto atua como pesquisadora é, ao mesmo tempo, uma grande realização e um enorme desafio. Em sua trajetória, foram duas licenças-maternidade e uma pandemia, período em que precisou se afastar para se dedicar mais à família.
Ela reconhece que as mulheres ainda precisam se desdobrar mais para ocupar os mesmos espaços que os homens na academia. Mas também enxerga o que a maternidade lhe trouxe: mais resiliência, mais comprometimento e mais eficiência. "Carrego comigo o desejo de ser um bom exemplo para meus filhos, mostrando que é possível persistir e conquistar sonhos”, confidencia.
Para Camila, avanços como a inclusão da maternidade nos editais da CAPES e do CNPq são passos importantes para reduzir desigualdades na pesquisa, mas ainda insuficientes. "Temos um longo caminho pela frente. Que essa caminhada siga abrindo portas para todas as mulheres que sonham em ser, ao mesmo tempo, mães e cientistas, sem precisar escolher entre um e outro”, deseja.
Muriel Amaral Jacob - Doutora em Direito pela PUC-SP, Advogada e Procuradora-Geral da UniRV, professora e pesquisadora nas áreas de Direito Processual Civil, Direito do Agronegócio e Regulação. Mãe da Laura, 4 anos.
Muriel optou conscientemente por adiar a maternidade até concluir o doutorado e se sentir mais estável profissionalmente. A chegada da Laura, diz ela, aconteceu no tempo certo, como uma escolha muito consciente e profundamente feliz.
Sua rotina é intensa, dividida entre universidade, pesquisa, docência e gestão jurídica, mas ela busca estabelecer prioridades e reservar tempo de qualidade para a filha. "Nem sempre existe equilíbrio perfeito, e alguns dias são mais desafiadores que outros", reconhece. O apoio da UniRV, segundo Muriel, faz diferença real nesse cotidiano.
Ela é honesta sobre o impacto da maternidade na produção científica. "A vida acadêmica exige tempo, concentração e constância, e a maternidade, especialmente nos primeiros anos, naturalmente redireciona prioridades. Hoje, meu foco principal é a Laura, e faço essa escolha com consciência e amor”, explica. Ao mesmo tempo, enxerga essa fase com perspectiva: à medida que os cuidados mais intensos vão passando, é possível retomar gradualmente um ritmo mais consistente na pesquisa.
Para Muriel, iniciativas como a inclusão dos filhos no Lattes e o Programa Aurora são avanços necessários. "Durante muito tempo, a maternidade foi tratada quase como uma interrupção da trajetória acadêmica, quando na verdade ela faz parte da vida de muitas pesquisadoras e precisa ser reconhecida institucionalmente”, acredita.
As trajetórias de Rose, Camila e Muriel são distintas em áreas, contextos e momentos da maternidade, mas convergem em um ponto essencial: ser mãe e pesquisadora não são papéis que se excluem, ainda que exijam adaptação, renúncias e muito suporte. Entre os cuidados intensos dos primeiros meses e a rotina que se transforma, mas não se simplifica, com o passar dos anos, a maternidade é uma jornada de dedicação constante que coexiste, dia após dia, com a vida acadêmica. Quando mães prosperam também na ciência, todos ganham. Na UniRV, essas histórias representam não apenas excelência profissional, mas resistência e compromisso com uma ciência mais diversa e atenta às diferentes realidades das pesquisadoras. Que elas sirvam de inspiração para as que virão.
Equipe ASCOM UniRV
Jornalista Jessica Bazzo – MTE 3194/GO
Fotos: Arquivo Pessoal
Arte: Vinicius Macedo