O sudoeste goiano tem tudo para deixar de ser reconhecido apenas como uma grande produtora de commodities e se consolidar como um polo de inovação em bioeconomia. A avaliação é da professora do Mestrado em Administração da UniRV, Dra. Gabriela Allegretti, que estuda o tema e destaca o papel estratégico da Universidade nesse processo.
A bioeconomia pode ser definida como o conjunto de atividades econômicas baseadas no uso sustentável e inovador de recursos biológicos renováveis: biodiversidade, biomassa e serviços ecossistêmicos para a produção de bens, serviços e energia. Na prática, explica Gabriela, trata-se de gerar riqueza a partir de plantas, florestas, microrganismos e resíduos orgânicos, transformando-os em alimentos, energia, medicamentos, cosméticos e outros produtos de forma inovadora e sustentável.
Embora tenha ganhado grande destaque nos últimos anos, o conceito não é novo. Sua origem remonta às ideias do economista Nicholas Georgescu-Roegen, na década de 1960, para quem a economia não podia ser vista separadamente da natureza. "Ele defendia que o desenvolvimento econômico precisa respeitar os limites biofísicos do planeta", resume a professora.
Hoje, a bioeconomia costuma ser explicada a partir de três abordagens complementares: a do tipo 1, que coloca a sustentabilidade e os limites ambientais no centro das decisões; a do tipo 2, baseada na biotecnologia e na inovação para o desenvolvimento de novos processos e produtos; e a do tipo 3, voltada à produção de biomassa para substituir recursos fósseis por alimentos, energia e combustíveis.
Um exemplo prático, segundo Gabriela, está no setor florestal. A biomassa do eucalipto usada para produzir papel e celulose representa a bioeconomia tipo 3, enquanto os avanços biotecnológicos que geram biocombustíveis, bio-óleos e cosméticos a partir da mesma matéria-prima ilustram a bioeconomia tipo 2. Já a bioeconomia tipo 1 é o que garante que essa produção preserve a biodiversidade e respeite os limites ambientais. "Um dos grandes desafios da bioeconomia atualmente é desenvolver métricas e metodologias capazes de medir seus impactos econômicos, sociais e ambientais", afirma a pesquisadora.
Inovação transformando resíduos em riqueza
Para a professora, o avanço da bioeconomia vem, sem dúvida, da inovação e da biotecnologia. Ela cita como exemplo os resíduos da produção animal: por muito tempo, os dejetos de suínos e bovinos eram vistos apenas como um passivo ambiental. Hoje, graças à tecnologia dos biodigestores, esse material pode ser convertido em biogás, biometano e biofertilizante gerando energia, combustível renovável e insumos para a agricultura a partir de um único resíduo.
"É esse movimento que permitirá ao Brasil deixar de ser apenas um grande exportador de commodities para se tornar um exportador de bioprodutos de alto valor agregado", avalia Gabriela.
O potencial do sudoeste goiano
Rio Verde e o sudoeste goiano reúnem condições privilegiadas de solo, clima e energia solar para a produção de biomassa, base de toda a bioeconomia. Mas, segundo a professora, o maior diferencial da região vai além dos recursos naturais: está no ecossistema de inovação que vem se consolidando, formado por instituições como a UniRV, unidades da Embrapa, fundações de produtores e empresas voltadas ao desenvolvimento tecnológico do agronegócio.
Esse ambiente favorece a agregação de valor a produtos tradicionalmente vendidos como commodities. O milho, por exemplo, pode gerar, além do etanol, DDG e DDGS para nutrição animal, óleo para a indústria alimentícia, fitoesteróis e zeaxantina para a indústria farmacêutica. Da soja, além do biodiesel, é possível obter farelo, glicerol e outros bioprodutos. "Assim como uma refinaria transforma o petróleo em produtos de maior valor agregado, a bioeconomia promove o biorrefino da biomassa, criando novas cadeias produtivas, novos empregos e mais desenvolvimento para a região", compara Gabriela.
O papel da UniRV: conhecimento como principal matéria-prima
Para a docente, existe uma diferença importante na forma como a bioeconomia é compreendida ao redor do mundo. Em muitos países em desenvolvimento, ela ainda é associada apenas à produção de biomassa; já em nações como os Estados Unidos e boa parte da Europa, é cada vez mais entendida como uma economia baseada em conhecimento, inovação e tecnologia. "A principal matéria-prima da bioeconomia não é a biomassa, é o conhecimento", diz a professora.
É nesse ponto que a UniRV desempenha um papel estratégico, formando, da graduação à pós-graduação, profissionais com visão sistêmica, capazes de enxergar oportunidades onde muitos veem apenas resíduos ou commodities. Iniciativas como o AgroHub reforçam esse ambiente, aproximando estudantes, pesquisadores e empresas e acelerando o desenvolvimento de novas tecnologias, startups e modelos de negócio. "No fim das contas, é esse conhecimento que permitirá ao sudoeste goiano deixar de ser reconhecido apenas como um grande produtor de biomassa para se consolidar como um polo de inovação em bioeconomia", projeta Gabriela.
O profissional do futuro
A bioeconomia exige um novo perfil de profissional e de empreendedor, segundo a pesquisadora. Ela defende que esse profissional precisa ter um "perfil em T": conhecimento profundo em sua área de formação: Agronomia, Engenharia, Biotecnologia, Administração ou Economia, aliado a uma visão ampla sobre toda a cadeia de valor da bioeconomia, capaz de integrar ciência, tecnologia, mercado, meio ambiente e políticas públicas.
Pensamento sistêmico, criatividade, capacidade de resolver problemas complexos e de trabalhar de forma colaborativa também são competências cada vez mais valorizadas, já que a bioeconomia é construída por equipes multidisciplinares que reúnem pesquisadores, produtores rurais, empresas, governos e investidores. Para os empreendedores, soma-se a capacidade de transformar conhecimento em oportunidades de negócio economicamente viáveis, ambientalmente sustentáveis e socialmente relevantes.
Tendências para os próximos anos
Olhando para o futuro, Gabriela aponta a transição energética como protagonista no curto e médio prazo, com destaque para os combustíveis sustentáveis de aviação (SAFs), produzidos a partir de óleos vegetais, resíduos agrícolas e florestais e outras matérias-primas renováveis, capazes de reduzir em até cerca de 80% as emissões de gases de efeito estufa em relação ao querosene de aviação convencional. Para que esse potencial se concretize, pondera a professora, é fundamental garantir a sustentabilidade de toda a cadeia produtiva, evitando desmatamento e uso inadequado do solo.
No médio e longo prazo, com o avanço de tecnologias energéticas como a fusão nuclear, a professora acredita que a maior contribuição da bioeconomia estará na produção de materiais de alto valor a partir de moléculas da biodiversidade brasileira: compostos bioativos com propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas, usados pelas indústrias farmacêutica, cosmética e alimentícia. "Este é o verdadeiro salto da bioeconomia: produzir mais riqueza utilizando menos matéria. O conhecimento passa a ser o principal insumo da produção, permitindo conciliar desenvolvimento econômico com conservação da biodiversidade", conclui.
Para o Reitor da UniRV, Prof. Dr. Alberto Barella Netto, a bioeconomia representa um dos grandes caminhos de futuro para o sudoeste goiano, e a Universidade reconhece a importância de estar à frente desse movimento. Segundo ele, a Instituição tem o compromisso de produzir e difundir conhecimento científico que dialogue diretamente com a realidade e as potencialidades da região, contribuindo para que o agronegócio local avance rumo a cadeias produtivas mais sustentáveis e de maior valor agregado. "Investir em pesquisa, em inovação e na formação de profissionais com visão sistêmica é parte da missão da UniRV com Rio Verde e com todo o sudoeste goiano", afirma o Reitor.
Equipe ASCOM UniRV
Jornalista Jessica Bazzo – MTE 3194/GO
Arte: Vinícius Macedo