Basta ligar a TV ou rolar o feed das redes sociais para se deparar com slogans ecológicos, produtos "ecofriendly" e empreendimentos com promessas de baixo impacto ambiental. Mas até que ponto o conceito de sustentabilidade não acabou se tornando apenas uma etiqueta comercial?
A reflexão é trazida pelo professor Fernando Kawahara, docente da disciplina de Sustentabilidade em Arquitetura do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Rio Verde (UniRV). Ao analisar o cenário contemporâneo, o especialista alerta que o debate sobre desenvolvimento socioeconômico e tecnológico exige reconhecer que todas as ações humanas dependem da exploração de recursos finitos do planeta.
"Falar sobre Desenvolvimento Sustentável vai muito além dos 'rótulos verdes' que a publicidade nos mostra todos os dias. Infelizmente, é comum que a ideia de 'baixo impacto ambiental' seja usada apenas como um chamariz comercial. Nesses casos, o discurso da sustentabilidade serve para valorizar a imagem de um investimento do que para gerar uma mudança real", destaca o professor.
Como docente da área de Arquitetura, Kawahara chama a atenção para a responsabilidade do setor produtivo e do ambiente construído. Ele recupera dados do International Council for Research and Innovation in Building and Construction (CIB) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-IETC), apontando que, no mundo desenvolvido, a indústria da construção civil consome cerca de 50% de todos os recursos extraídos da crosta terrestre, além de responder por 40% a 50% de toda a energia produzida nesses países.
Nesse contexto, o professor ressalta a definição da Agenda 21 da Construção Sustentável para Países em Desenvolvimento, que enxerga a sustentabilidade como a condição necessária para permitir a existência do Homo sapiens com segurança, saúde e produtividade, sempre em harmonia com a natureza e com os valores culturais e espirituais locais.
Diante de números tão expressivos, a transição para um modelo sustentável exige ações concretas no campo da arquitetura e do planejamento urbano. Na etapa de projeto, o caminho passa pela adoção de estratégias bioclimáticas, aproveitando a iluminação e a ventilação naturais, pela especificação consciente de materiais de baixo impacto e por soluções para a eficiência energética e hídrica das edificações.
Já no canteiro de obras, o combate ao desperdício e a gestão adequada de resíduos são decisivos. Isso envolve a triagem e segregação dos detritos na própria fonte para viabilizar a reciclagem de materiais como concreto, madeira e metais, reduzindo o volume de entulho enviado aos aterros e combatendo os descartes irregulares nas cidades.
Essa visão integrada reforça o papel estratégico do profissional de Arquitetura e Urbanismo. Muito além do desenho estético, cabe ao arquiteto atuar como articulador de soluções que equilibrem o desenvolvimento técnico e a preservação ambiental, transformando os dados alarmantes do setor em projetos que respeitem os limites do ecossistema.
Ao resgatar a conceituação histórica do termo, discutido desde a Conferência de Estocolmo em 1972 e consolidado pela ONU, Kawahara reforça que a busca por padrões de vida baseados no consumo progressivo tem exaurido as fontes naturais e acelerado as mudanças climáticas globais.
Superar esse quadro, portanto, exige que a sociedade e a construção civil assumam a definição fundamental de sustentabilidade trazida pelo docente: atender às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades.
Equipe Ascom UniRV
Jornalista Vanderli Silvestre - CRP 4126/GO
Arte: Vinicius Macedo