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Mercado de carbono: oportunidades, desafios e o papel da formação

Publicado em: 15-06-2026
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A sustentabilidade deixou de ser um tema exclusivamente ambiental e passou a fazer parte da estratégia e da competitividade do agronegócio. Mercado de carbono, rastreabilidade, exigências dos mercados internacionais e práticas agrícolas sustentáveis estão no centro das transformações que o setor enfrenta e que demandam, cada vez mais, profissionais com formação multidisciplinar.
 
O Prof. Dr. Felipe Dalzotto Artuzo, docente do Mestrado Profissional em Administração com Ênfase em Sustentabilidade e Agronegócio da UniRV e pesquisador do tema, responde aqui quais os principais aspectos desse cenário, incluindo resultados de suas pesquisas sobre sistemas agrícolas e sustentabilidade publicados em periódicos científicos internacionais.
 
O que é o mercado de carbono e por que ele tem ganhado relevância para o agronegócio?
 
O mercado de carbono é um mecanismo econômico que atribui valor financeiro à redução das emissões de gases de efeito estufa e que vem ganhando peso crescente à medida que governos, consumidores, investidores e empresas assumem metas de descarbonização. Para o agronegócio, esse cenário representa duas oportunidades concretas: uma nova fonte de receita para os produtores rurais e o estímulo à adoção de tecnologias e práticas agrícolas sustentáveis. No entanto, a operacionalização do mercado de carbono no setor ainda está em fase de construção. O principal desafio é o desenvolvimento de metodologias adaptadas às condições tropicais e à diversidade dos sistemas produtivos brasileiros, capazes de medir, monitorar e comprovar o carbono efetivamente removido ou as emissões efetivamente evitadas pelas atividades agrícolas.
 
Como funcionam os créditos de carbono e que oportunidades eles podem gerar para produtores e empresas?
 
Os créditos de carbono são certificados que representam uma quantidade de gases de efeito estufa que deixou de ser emitida ou foi removida da atmosfera por meio de uma determinada atividade ou projeto. Cada crédito corresponde, de forma simplificada, a uma tonelada de dióxido de carbono equivalente (CO₂e). Esses créditos podem ser comercializados para empresas ou organizações que desejam compensar parte de suas emissões, gerando um incentivo econômico para a adoção de práticas sustentáveis.

Para produtores rurais e empresas do agronegócio, práticas como recuperação de áreas degradadas, sistemas integrados de produção, plantio direto e aumento do carbono no solo podem, futuramente, ser reconhecidas em projetos de carbono, desde que atendam aos critérios e metodologias estabelecidos. É importante destacar que o mercado aplicado ao agronegócio brasileiro ainda está em desenvolvimento. Muitas das práticas que favorecem o sequestro de carbono no solo também promovem melhorias na qualidade física, química e biológica do solo, tornando-o mais resiliente e produtivo. À medida que metodologias adaptadas à realidade brasileira forem consolidadas, os produtores poderão acessar essa nova fonte de renda.
 
As exigências ambientais dos mercados internacionais vêm se intensificando. Como isso afeta quem produz e exporta alimentos?
 
As exigências ambientais dos mercados internacionais se intensificaram nos últimos anos e tendem a ganhar ainda mais relevância. Se antes a competitividade estava associada principalmente à produtividade, ao preço e à qualidade do produto, hoje aspectos como sustentabilidade, rastreabilidade e conformidade ambiental também influenciam o acesso aos mercados.

Na prática, produtores, cooperativas, tradings e agroindústrias precisam demonstrar transparência sobre a origem dos produtos, o uso da terra, o cumprimento da legislação ambiental e os impactos associados à produção. Iniciativas como a regulamentação europeia para produtos livres de desmatamento (EUDR) e programas de certificação como ISCC EU, ISCC PLUS e ISCC Corsia são exemplos desse movimento. O Brasil possui condições de produção únicas, ampla legislação ambiental e sistemas produtivos que podem apresentar ganhos ambientais relevantes em comparação a outras regiões. O desafio está em transformar esses diferenciais em informações verificáveis e confiáveis para o mercado. Ferramentas de rastreabilidade, monitoramento e certificações tendem a ganhar peso crescente nesse cenário.
 
Quais práticas sustentáveis contribuem para a geração de valor econômico e ambiental nas propriedades rurais?
 
Sob a ótica do mercado de carbono, as práticas mais relevantes são aquelas capazes de aumentar o estoque de carbono no solo ou reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Entre elas, destacam-se o plantio direto, o uso de plantas de cobertura, a diversificação de culturas, os sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta, a recuperação de áreas degradadas e as boas práticas de manejo do solo.

Essas práticas contribuem para o aumento da matéria orgânica e do carbono armazenado no solo, para a melhoria da estrutura e da capacidade de retenção de água e para o fortalecimento da capacidade produtiva do sistema. Do ponto de vista econômico, isso gera ganhos diretos relacionados ao aumento da produtividade e à maior eficiência no uso dos insumos, além do potencial de geração de créditos de carbono ou de valorização dos produtos em mercados que exigem comprovação de sustentabilidade.

É importante destacar que nem toda prática que gera benefícios ambientais necessariamente resultará em créditos de carbono. A elegibilidade de uma prática depende das metodologias utilizadas pelos programas e mercados, que estabelecem critérios específicos para quantificação, monitoramento e comprovação dos resultados. O desafio atual está em consolidar metodologias adequadas à realidade do agronegócio brasileiro para que esses benefícios ambientais se traduzam em oportunidades econômicas concretas.
 
Que conhecimentos e competências os profissionais precisam desenvolver para atuar nesse cenário?
 
A sustentabilidade passou a fazer parte da estratégia e da competitividade das empresas do agronegócio. Os profissionais que desejam atuar nesse cenário precisam de uma formação multidisciplinar, capaz de conectar aspectos técnicos, econômicos, ambientais e regulatórios.

Torna-se cada vez mais importante compreender temas como mudanças climáticas, mercado de carbono, rastreabilidade, certificações, legislação ambiental e indicadores de sustentabilidade. Cresce também a necessidade de profissionais capazes de interpretar dados, utilizar ferramentas digitais, geotecnologias e sistemas de monitoramento para geração de informações confiáveis. Além do conhecimento técnico, competências como visão sistêmica, capacidade analítica, comunicação e adaptação às mudanças serão cada vez mais valorizadas. Sustentabilidade e rentabilidade são elementos que se complementam, e o profissional precisa compreender essa relação.
 
Como o Mestrado Profissional em Gestão com Ênfase em Sustentabilidade e Agronegócio da UniRV aborda esses temas?
 
O programa aborda mercado de carbono, gestão ambiental e desenvolvimento sustentável de forma integrada à gestão, à inovação e às demandas atuais do agronegócio. O objetivo é desenvolver conhecimentos e soluções que promovam a sustentabilidade nas organizações do setor, considerando simultaneamente os aspectos econômicos, sociais e ambientais.

As discussões sobre mercado de carbono são inseridas em uma visão mais ampla de sustentabilidade, competitividade, governança e criação de valor para as organizações. Temas como gestão ambiental, ESG, inovação e desenvolvimento sustentável são trabalhados com foco na geração de vantagem competitiva. Entre os objetivos do programa está a formação de profissionais aptos a compreender as transformações dos mercados, as crescentes exigências ambientais e as oportunidades associadas à sustentabilidade.
 
Como pesquisador da área, quais são os principais resultados dos seus estudos?
 
Um dos principais resultados das pesquisas que venho desenvolvendo é que a sustentabilidade no agronegócio não depende apenas de produzir mais, mas de como os sistemas produtivos são estruturados. Estudos que realizamos mostram que sistemas agrícolas diversificados e que integram lavoura e pecuária tendem a apresentar melhor desempenho ambiental, maior renovabilidade dos recursos utilizados e maior nível de sustentabilidade em comparação a sistemas mais simplificados ou baseados em monoculturas.

Outro resultado relevante é que a sustentabilidade se fortalece quando os sistemas agrícolas utilizam de forma mais eficiente os recursos disponíveis e potencializam as interações entre solo, plantas, animais e ambiente. Práticas como a integração lavoura-pecuária, a diversificação de culturas e o uso de plantas de cobertura favorecem a ciclagem de nutrientes, aumentam a renovabilidade dos sistemas e melhoram a qualidade do solo. Esses benefícios reduzem impactos ambientais e criam condições para sistemas produtivos mais resilientes e eficientes.

Esses resultados reforçam que o futuro do agronegócio passa pela intensificação sustentável: a capacidade de produzir alimentos, energia e proteínas de forma cada vez mais eficiente, conciliando produtividade, viabilidade econômica e conservação dos recursos naturais. Temas como mercado de carbono, agricultura regenerativa e indicadores de sustentabilidade terão papel crescente na competitividade do setor.
 
O Reitor, Prof. Dr. Alberto Barello Netto destaca que a UniRV está localizada em uma das regiões de maior produção agropecuária do Brasil, e isso a coloca em uma posição estratégica na formação de profissionais e produção de conhecimento diretamente conectados aos desafios do setor. “O Mestrado Profissional em Gestão com Ênfase em Sustentabilidade e Agronegócio nasce dessa responsabilidade. Não se trata apenas de discutir sustentabilidade como conceito, mas de desenvolver competências e pesquisas que respondam às transformações concretas que o agronegócio enfrenta, seja nas exigências dos mercados internacionais, seja na construção de sistemas produtivos mais eficientes e duráveis. É nesse espaço, entre o conhecimento científico e a prática do setor, que o programa se posiciona”, conclui.

Referências
 
Artigo: Emergy unsustainability index for agricultural systems assessment: A proposal based on the laws of thermodynamics
Revista: Science of the Total Environment
DOI: https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2020.143524
 
Artigo: Agricultural systems design: Strategies for nutritionally oriented sustainable intensification
Revista: Journal of Environmental Management
DOI: https://doi.org/10.1016/j.jenvman.2025.125253 

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