O ESG (Environmental, Social and Governance) tem ganhado espaço no agronegócio como uma estratégia que vai além da preservação ambiental. A adoção de práticas sustentáveis, a responsabilidade social e a governança podem fortalecer a reputação das empresas rurais, abrir mercados, atrair investimentos e aumentar a competitividade do setor.
A docente do Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade e Agronegócio da UniRV e doutora em Agronegócio, Gabriela Allegretti, explica como esses pilares podem ser aplicados na realidade do campo.
O que é ESG e por que esse conceito tem ganhado cada vez mais espaço no agronegócio?
Gabriela: A sigla ESG vem do inglês Environmental, Social and Governance (em tradução, ambiental, social e governança). Sua origem remete ao mercado financeiro, onde, em 2004, de uma parceria entre a ONU e o Banco Mundial, representada por instituições financeiras globais, foi produzido o documento "Who Cares Wins" (em tradução, "Quem se importa, vence"), destacando a importância da incorporação de critérios sociais, ambientais e de governança nas análises e decisões de investimentos dessas instituições.
As instituições detentoras do capital passaram a exigir que os temas materiais (relevantes) para cada atividade produtiva se submetessem a uma gestão de risco socioambiental e que assegurassem o capital reputacional para serem financiadas. Mas, mais do que atender a exigências de financiadores, o ESG passou a ser uma ferramenta estratégica para identificar riscos e oportunidades relacionados a mudanças climáticas, acesso a mercados, inovação, eficiência operacional e fortalecimento da reputação das organizações.
O agronegócio ocupa posição central nessa discussão porque depende diretamente de recursos naturais como solo, água, biodiversidade e estabilidade climática, além de gerar muitos empregos e oportunidades de renda e qualidade de vida para muitas famílias. Além disso, é um dos segmentos mais expostos aos impactos das mudanças climáticas e às exigências crescentes de consumidores, investidores e mercados internacionais por maior transparência, rastreabilidade e sustentabilidade.
Embora frequentemente utilizados como sinônimos, sustentabilidade e ESG não são exatamente a mesma coisa. A sustentabilidade representa o objetivo final de gerar valor econômico, social e ambiental no longo prazo. Já o ESG consiste em um conjunto de critérios, métricas e práticas de gestão que permitem avaliar e demonstrar esse desempenho ao mercado e à sociedade.
Como a adoção de práticas ESG pode contribuir para a competitividade das empresas e propriedades rurais?
Gabriela: A adoção de práticas ESG contribui para a competitividade porque ajuda empresas e propriedades rurais a compreenderem melhor seus riscos e a identificarem novas oportunidades de negócio. Quando uma organização avalia aspectos ambientais, sociais e de governança, passa a entender melhor as expectativas de seus clientes, fornecedores, investidores, instituições financeiras e demais parceiros da cadeia produtiva. A partir desse diagnóstico, torna-se possível definir prioridades, estabelecer metas e implementar ações que agreguem valor ao negócio.
Na prática, isso pode significar maior acesso a mercados mais exigentes, melhores condições de financiamento, fortalecimento da reputação da marca, aumento da eficiência operacional e redução de riscos relacionados a questões ambientais, climáticas, trabalhistas e regulatórias. Além disso, o processo frequentemente estimula a inovação, permitindo o desenvolvimento de novos produtos, serviços e modelos de negócio alinhados às demandas da sociedade e do mercado.
Por isso, os critérios ESG não devem ser vistos como um custo ou apenas como uma exigência. Eles representam uma ferramenta estratégica de gestão que fortalece a resiliência das empresas e propriedades rurais, aumenta sua competitividade e amplia sua capacidade de prosperar em um cenário de transformações cada vez mais rápidas.
Quais são os principais desafios para implementar ações relacionadas à sustentabilidade, responsabilidade social e governança no setor?
Gabriela: Considerando o setor do agronegócio, estamos falando desde grandes empresas de capital aberto, que já possuem demandas institucionais de cumprimento de critérios ESG e apresentação de relatórios de sustentabilidade, até pequenos produtores, que são o elo mais frágil ou a etapa "dentro da porteira" do agro.
As grandes empresas geralmente já possuem estruturas mais preparadas para atender às exigências de investidores, clientes e mercados internacionais. Mesmo assim, ainda enfrentam desafios relacionados à mensuração de indicadores, à elaboração de relatórios de sustentabilidade e, principalmente, do ponto de vista da governança, à incorporação da cultura ESG em todos os níveis da organização, desde a alta liderança até as equipes operacionais. Quando falamos especificamente da implementação de ações de sustentabilidade, desafios como a necessidade de investimentos iniciais, a adoção de novas tecnologias, a capacitação das equipes e a mensuração dos resultados ainda são barreiras importantes. Muitas vezes, os benefícios econômicos e ambientais dessas ações são percebidos no médio e longo prazo, exigindo planejamento e visão estratégica por parte dos gestores.
Para os pequenos produtores e empresas de menor porte, os desafios costumam ser ainda maiores. Entre eles, destacam-se a falta de conhecimento sobre o tema, a necessidade de investimento em sistemas de monitoramento e rastreabilidade e a dificuldade de acompanhar as crescentes exigências dos mercados. Um exemplo é a exportação de carne bovina para mercados como a União Europeia, que exige comprovação de conformidade socioambiental e rastreabilidade ao longo da cadeia produtiva. Nesse contexto, produtores rurais precisam demonstrar que sua produção atende a critérios relacionados, por exemplo, ao controle do desmatamento e à origem dos produtos.
Por isso, um dos grandes desafios do agronegócio nos próximos anos será ampliar o acesso à informação, à capacitação, à assistência técnica e às tecnologias que permitam aos produtores implementar práticas mais sustentáveis de forma viável e competitiva. Ao mesmo tempo, é importante enxergar essas demandas não apenas como obstáculos, mas como oportunidades para agregar valor à produção, fortalecer a reputação dos negócios e ampliar o acesso a mercados cada vez mais exigentes.
O ESG é uma exigência do mercado ou uma oportunidade estratégica para os negócios?
Gabriela: O ESG é, ao mesmo tempo, uma exigência do mercado e uma oportunidade estratégica para os negócios. No entanto, a forma como cada empresa ou produtor encara essa agenda é o que determinará os resultados que poderá alcançar.
Por um lado, os mercados consumidores, investidores, instituições financeiras e órgãos reguladores estão cada vez mais exigentes em relação a temas como mudanças climáticas, rastreabilidade, uso dos recursos naturais, condições de trabalho e governança. Nesse sentido, atender aos critérios ESG deixou de ser um diferencial e passou a ser uma condição importante para acessar determinados mercados e fontes de financiamento.
Por outro lado, empresas que enxergam o ESG apenas como uma obrigação tendem a focar nos custos de adequação. Já aquelas que incorporam esses critérios ao planejamento estratégico conseguem identificar oportunidades de inovação, eficiência e geração de valor. No agronegócio, isso pode ser observado em iniciativas como agricultura regenerativa, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), recuperação de pastagens degradadas, agricultura de baixo carbono e projetos relacionados ao mercado de carbono. Além de promover benefícios ambientais, essas práticas podem aumentar a produtividade, melhorar a eficiência no uso dos recursos, ampliar o acesso a crédito com condições diferenciadas e abrir portas para mercados mais exigentes e rentáveis.
À medida que a agenda climática avança e novas regulamentações entram em vigor, surgem também oportunidades para empresas e produtores que estejam preparados para mensurar seus resultados, gerir seus impactos e comunicar essas informações de forma transparente. Por isso, acredito que o ESG não deve ser visto apenas como uma exigência a ser cumprida, mas como uma ferramenta estratégica capaz de fortalecer a competitividade, impulsionar a inovação e preparar os negócios para os desafios e oportunidades do futuro.
Como a inovação e a gestão podem auxiliar produtores e empresas na adoção dessas práticas?
Gabriela: A inovação e a gestão são fundamentais para transformar os princípios ESG em resultados concretos dentro do agronegócio. Na prática, elas permitem que produtores e empresas produzam mais, utilizem melhor os recursos disponíveis e atendam às exigências dos mercados de forma eficiente e competitiva.
A gestão é o ponto de partida. Não é possível melhorar aquilo que não é medido. Dessa forma, o monitoramento de indicadores relacionados ao uso da água, ao consumo de energia, às emissões de gases de efeito estufa, à conservação do solo, à segurança do trabalho e à conformidade legal permite identificar riscos, estabelecer metas e acompanhar a evolução dos resultados ao longo do tempo.
Quando falamos de inovação, muitas pessoas pensam apenas em máquinas ou tecnologias avançadas. No entanto, inovar também significa adotar novas formas de gerir o negócio, monitorar indicadores, tomar decisões com base em dados e buscar maior eficiência no uso dos recursos naturais. Na prática, diversas tecnologias já auxiliam os produtores nesse processo. Ferramentas de agricultura de precisão permitem otimizar a aplicação de fertilizantes e defensivos, reduzindo custos e impactos ambientais. Sistemas de monitoramento por satélite ajudam a acompanhar o uso do solo e a comprovar a conformidade ambiental das propriedades. Da mesma forma, softwares de gestão possibilitam controlar indicadores produtivos, econômicos e socioambientais de forma integrada. A tecnologia gera dados, mas é a gestão que transforma esses dados em valor. No agronegócio, as propriedades mais competitivas do futuro não serão necessariamente as maiores, mas aquelas que conseguirem tomar melhores decisões a partir das informações que possuem.
De que forma temas como ESG são discutidos e pesquisados no ambiente acadêmico, especialmente no Mestrado em Gestão da UniRV?
Gabriela: No ambiente acadêmico, o ESG tem sido discutido não apenas como um conceito teórico, mas principalmente como uma ferramenta de gestão capaz de ajudar empresas e produtores rurais a enfrentar desafios reais relacionados à sustentabilidade, competitividade e inovação.
No caso do Mestrado Profissional em Gestão da UniRV, o grande diferencial está justamente na conexão entre a produção do conhecimento e as demandas do agronegócio. Por ser um programa voltado para sustentabilidade e agronegócio, as pesquisas buscam desenvolver soluções aplicáveis às organizações, contribuindo para a tomada de decisão e para a geração de valor econômico, social e ambiental.
Os temas ESG aparecem de forma transversal em diversas linhas de pesquisa, envolvendo questões como gestão de riscos socioambientais, mudanças climáticas, inovação, governança, rastreabilidade, economia circular, bioeconomia, indicadores de sustentabilidade e mensuração de impactos. São temas diretamente relacionados aos desafios enfrentados pelas empresas e produtores rurais na atualidade.
Na prática, isso significa desenvolver estudos que possam auxiliar organizações a melhorar sua eficiência produtiva, reduzir impactos ambientais, atender às exigências de mercados nacionais e internacionais e identificar novas oportunidades de negócio associadas à sustentabilidade.
Além disso, a diversidade de experiências dos professores e alunos, muitos deles atuando diretamente no setor produtivo, cria um ambiente propício para a troca de conhecimentos e para a construção de soluções inovadoras. Dessa interação surgem pesquisas, metodologias, produtos técnicos e tecnológicos que contribuem para o fortalecimento de um agronegócio mais sustentável, competitivo e preparado para os desafios do futuro.
Como a formação da UniRV pode preparar profissionais para lidar com desafios relacionados à sustentabilidade e governança?
Gabriela: A partir da evolução tecnológica e do incremento na forma de compartilhamento da informação, a educação vem se reinventando constantemente. E isso não é diferente no agronegócio. Acredito que o grande diferencial hoje está na aproximação da academia com o mercado, onde o segundo agente, o mercado, apresenta problemas e desafios sentidos no campo, e o primeiro os contextualiza, analisa, propõe e testa hipóteses para buscar soluções.
Alguém poderia dizer que isso sempre aconteceu com a ciência, porém em processo mais lento. Hoje, a velocidade da transferência da informação e do conhecimento é muito mais dinâmica, e os profissionais do futuro precisam ser preparados para esse novo padrão. Além da qualificação técnica de excelência, as formações profissionais da UniRV estão alinhadas com essa nova demanda de sustentabilidade e governança. Muito mais do que isso, a busca de parcerias com empresas e instituições que são o verdadeiro motor do desenvolvimento coloca a Universidade e seus acadêmicos no centro das discussões e da geração de conhecimento, tornando-a referência sobre o tema.
Alguns exemplos práticos dentro da UniRV são o AgroHub UniRV, a incubadora de empresas YpeTec e o Inovalab (laboratório de ideação e prototipagem), local onde, juntos, academia e mercado constroem soluções em um ecossistema de inovação do agronegócio de Rio Verde.
Outro ponto importante na formação profissional para participar das discussões de sustentabilidade e ESG é o perfil interdisciplinar do profissional. ESG é um tema complexo que envolve o cruzamento de várias áreas do conhecimento. O profissional que vem sendo preparado no Programa de Mestrado em Sustentabilidade e Agronegócios da UniRV busca atender a esse perfil, que vai além do olhar disciplinar: entende que somente das trocas e de novos olhares sobre um mesmo objeto é possível gerar conhecimentos novos e aplicados.
Qual mensagem você deixaria para os profissionais que desejam se preparar para as novas demandas do mercado?
Gabriela: O profissional que deseja se preparar para as novas demandas do mercado precisa cultivar uma característica fundamental: a sede permanente por conhecimento. Em um cenário cada vez mais complexo e dinâmico, não basta apenas encontrar respostas, é essencial saber fazer as perguntas certas, no momento certo. Para isso, torna-se indispensável desenvolver uma visão interdisciplinar, livre de preconceitos e orientada para a construção de soluções.
Minha mensagem é simples: encare os desafios do mundo empresarial com o mesmo comprometimento que você dedicaria a uma causa pessoal. Escute diferentes perspectivas, dialogue com todos os envolvidos e com quem tenha conhecimento em áreas que você não domina, aprenda continuamente e utilize a tecnologia como uma aliada para promover inovação e sustentabilidade. Tenha coragem de ir além do óbvio, questionar modelos estabelecidos e enxergar oportunidades onde outros veem apenas dificuldades.
O futuro pertencerá aos profissionais capazes de gerar valor econômico, social e ambiental de forma integrada, contribuindo para uma sociedade que busca soluções viáveis para os desafios do presente sem comprometer a jornada das futuras gerações. Afinal, mais do que acompanhar as mudanças, será protagonista delas quem aprender a transformar conhecimento em impacto positivo.
Pesquisa na prática
O Reitor da UniRV, Prof. Dr. Alberto Barella Netto, que estudou no doutorado “Capacidades do Ecossistema Regional de Inovação: Proposição de um Framework com Destaque para o Papel da Universidade”, corrobora a análise de Gabriela e vê um diálogo entre os resultados de sua pesquisa e a visão apresentada sobre os desafios do ESG no agronegócio. "A reinvenção da educação no agronegócio, mencionada pela professora Gabriela, é o que tecnicamente definimos na tese como o desenvolvimento da Capacidade de P&D e da Capacidade de Orquestração do ecossistema. Quando aproximamos a academia do mercado para testar hipóteses e buscar soluções para o campo, estamos exercendo a cocriação de valor, uma das dimensões fundamentais para que a inovação não seja apenas técnica, mas também ambiental e social", destaca.
Sobre o incentivo à inovação na UniRV, o Reitor destaca que o AgroHub UniRV, a YpeTec e o Inovalab não são projetos isolados; são o coração da nossa Capacidade de Rede, permitindo que múltiplos atores se engajem em relacionamentos que geram interdependência e fortalecem o ecossistema de Rio Verde. "Na UniRV, entendemos que o desenvolvimento de capital humano especializado é uma atribuição central da Universidade dentro do ecossistema, garantindo que o conhecimento gerado em nossos mestrados se transforme em vantagem competitiva e sustentabilidade para a região. A velocidade da informação hoje exige que a Universidade atue como uma orquestradora, aplicando seu capital intelectual e reputacional para manter um ecossistema forte em que a sustentabilidade seja o objetivo central de inovação. A formação da UniRV está alinhada a esse novo padrão, pois validamos que a nossa liderança institucional é capaz de mobilizar os atores em prol de um desenvolvimento regional que une alta produtividade agrícola com governança e responsabilidade socioambiental", conclui.
Equipe ASCOM UniRV
Jornalista Jessica Bazzo – MTE 3194/GO
Arte: Eduardo Thomaz