A busca pelo corpo ideal e pelo rápido ganho de massa muscular tem levado cada vez mais pessoas ao uso de esteroides anabolizantes sem orientação médica. Embora essas substâncias sejam indicadas para o tratamento de determinadas condições de saúde, seu uso ilícito tornou-se uma prática comum em academias e ambientes esportivos, especialmente entre os homens que desejam resultados estéticos em curto prazo.
No entanto, o Professor de Fisiologia Humana da Faculdade de Fisioterapia da Universidade de Rio Verde Dr. Juliano Vilela Alves, que tem ampla formação em farmacologia cardiovascular, biologia vascular e mecanismos celulares envolvidos nas doenças cardiovasculares pontua os efeitos da exposição a níveis suprafisiológicos de testosterona.
O Docente que tem como linha de pesquisa, o foco nos efeitos cardiovasculares da exposição a níveis suprafisiológicos de testosterona, condição frequentemente observada em usuários de esteroides anabolizantes androgênicos. Segundo ele, embora a testosterona exerça funções fisiológicas importantes na manutenção da homeostase cardiovascular, evidências experimentais demonstram que sua utilização em doses elevadas pode desencadear uma série de alterações moleculares, vasculares e cardíacas capazes de comprometer a saúde cardiovascular.
Juliano explica que os estudos desenvolvidos pelo grupo demonstraram que a testosterona em níveis suprafisiológicos promove ativação do receptor androgênico e desencadeia importantes vias inflamatórias, com destaque para a ativação do inflamassoma NLRP3. “Esse complexo intracelular estimula a produção e liberação de citocinas pró-inflamatórias, como IL-1β e IL-18, favorecendo o estabelecimento de um ambiente inflamatório associado ao aumento do estresse oxidativo, disfunção endotelial e remodelamento cardiovascular. Esses mecanismos foram descritos em estudos experimentais publicados pelo grupo, demonstrando que a inflamação desempenha papel central nos efeitos deletérios induzidos pela testosterona.”
O Professor explica ainda que no sistema vascular, suas pesquisas demonstraram que a exposição crônica à testosterona promove redução da biodisponibilidade de óxido nítrico (NO), perda da capacidade vasodilatadora e aumento da resposta contrátil dos vasos sanguíneos a agentes vasoconstritores. “Associadas ao aumento da inflamação vascular e da produção de espécies reativas de oxigênio (ROS), essas alterações favorecem o remodelamento vascular caracterizado pelo espessamento da parede arterial e aumento da rigidez vascular. Como consequência, observa-se elevação da resistência vascular periférica, culminando em aumento da pressão arterial e maior risco cardiovascular.”
Além dos efeitos vasculares, o Docente comenta que os estudos também evidenciaram importantes repercussões cardíacas. “A exposição prolongada à testosterona em doses elevadas compromete a função miocárdica, favorecendo alterações na contratilidade e no relaxamento cardíaco. Paralelamente, ocorre remodelamento estrutural caracterizado por hipertrofia cardíaca e fibrose miocárdica, acompanhado de alterações da condução elétrica e da repolarização ventricular. Essas adaptações patológicas aumentam a suscetibilidade ao desenvolvimento de arritmias supraventriculares e ventriculares, contribuindo para a progressão da disfunção cardíaca e para o aumento do risco de insuficiência cardíaca e morte súbita.”
Juliano comenta tambem sobre outro aspecto relevante de suas pesquisas, que envolve a identificação de mecanismos compensatórios capazes de limitar os efeitos deletérios da testosterona. “Nesse contexto, demonstramos que a NADPH oxidase 4 (NOX4) exerce papel protetor por meio da produção controlada de peróxido de hidrogênio (H₂O₂), atuando como mecanismo contrarregulatório capaz de preservar a função endotelial, reduzir a inflamação vascular e limitar a migração de células do músculo liso vascular, ampliando a compreensão dos mecanismos envolvidos na resposta vascular à testosterona.”
Para finalizar, Juliano pontua que em conjunto, essas pesquisas demonstram que a exposição crônica a níveis suprafisiológicos de testosterona promove uma cascata de eventos envolvendo inflamação, estresse oxidativo, disfunção endotelial, remodelamento vascular e alterações cardíacas estruturais e elétricas. Ele explica que essas alterações contribuem para o desenvolvimento de hipertensão arterial, aterosclerose acelerada, arritmias, insuficiência cardíaca e aumento do risco de morte súbita. “Os estudos desenvolvidos fornecem uma base científica robusta para compreender os riscos cardiovasculares associados ao uso não terapêutico de testosterona e esteroides anabolizantes, aproximando evidências experimentais dos achados clínicos observados em seres humanos e contribuindo para estratégias de prevenção, conscientização e promoção da saúde cardiovascular.”
Juliano Vilela Alves é fisioterapeuta formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com mestrado e doutorado em Farmacologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Durante o doutorado, realizou período de treinamento e pesquisa na Universidade de Pittsburgh (EUA), ampliando sua formação em farmacologia cardiovascular, biologia vascular e mecanismos celulares envolvidos nas doenças cardiovasculares.
Equipe Ascom UniRV
Jornalista Vanderli Silvestre - CRP 4126/GO
Arte:Vinicius Macedo