O avanço das mudanças climáticas já compromete a agricultura brasileira. Um relatório conjunto da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado recentemente, aponta que, entre 2023 e 2024, períodos prolongados de calor intenso derrubaram em quase 10% a produção de soja nas regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste do país, onde as temperaturas superaram em até 5 °C os registros históricos. O impacto também foi sentido nas culturas de milho, feijão, cana-de-açúcar e batata, que registraram avanço de pragas e doenças, com prejuízos à produtividade e à renda no campo. A criação animal também foi afetada: bovinos e suínos sob estresse térmico produziram menos leite e ganharam menos peso, enquanto o aquecimento das águas elevou a mortalidade de espécies de peixes. Incêndios florestais e inundações no Sul do país completaram um quadro que, segundo as agências da ONU, tende a se agravar: eventos climáticos extremos estão ficando mais frequentes, mais intensos e mais duradouros, colocando em risco sistemas produtivos, meios de vida e a segurança alimentar em escala global.
Na última semana, projeções da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) indicaram que as chances de formação de um novo El Niño em 2026 já ultrapassam 90%. Em resposta, uma nota técnica conjunta elaborada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (FUNCEME) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM) alerta para uma probabilidade superior a 80% de estabelecimento do fenômeno no segundo semestre de 2026, com persistência prevista até o início de 2027. O diagnóstico aponta aquecimento do Oceano Pacífico equatorial, com sinais subsuperficiais que reforçam a tendência de um evento de intensidade pelo menos moderada. Regionalmente, espera-se déficit de chuvas e risco de incêndios nas regiões Norte e Nordeste, enquanto o Sul deve registrar precipitação acima da média e maior risco de inundações. No Centro-Oeste e Sudeste, a tendência é de temperaturas elevadas e irregularidade pluviométrica. As instituições recomendam monitoramento contínuo das condições oceânicas e acompanhamento rigoroso das previsões de curto prazo nos canais oficiais, medidas fundamentais para subsidiar o planejamento e a resposta rápida aos impactos socioeconômicos, como secas e tempestades, que podem comprometer o abastecimento de água e a segurança alimentar em todo o país.
Diante desse cenário, o Prof. Dr. Gilmar Oliveira Santos, docente e pesquisador da Universidade de Rio Verde (UniRV), analisa os impactos já observados na região e destaca as estratégias que podem garantir a resiliência da agricultura nas próximas décadas.
Para o professor, os dados locais confirmam a tendência global. "Em Rio Verde, observamos uma tendência de aumento da temperatura ao longo dos anos e maior irregularidade das precipitações", afirma. O monitoramento climático realizado na região desde 1972 registrou, nos últimos anos, seus recordes históricos mais preocupantes: o maior período de estiagem foi observado em 2023, com 179 dias consecutivos sem chuva superior a 10 mm, e a maior temperatura já registrada chegou a 40,1 °C em 2020.
Além do aumento das temperaturas máximas, o pesquisador chama atenção para um fenômeno menos visível, mas igualmente preocupante: o crescimento significativo das chamadas "noites quentes". "As plantas têm menor capacidade de recuperação fisiológica durante a noite, aumentando o consumo de energia para manutenção e reduzindo o potencial produtivo", explica. O efeito é direto sobre culturas estratégicas como soja e milho, para as quais Rio Verde figura entre os maiores polos produtores do país. Períodos secos durante fases críticas, como florescimento e enchimento de grãos, podem provocar perdas expressivas de produtividade, agravadas pelo aumento da evapotranspiração decorrente das temperaturas mais altas.
Na pecuária, o quadro não é diferente: as altas temperaturas reduzem o conforto térmico dos animais e comprometem a produção de forragem. "O produtor rural sempre conviveu com o clima. A diferença é que agora os extremos estão mais frequentes e intensos, tornando o monitoramento climático e o planejamento agrícola ainda mais importantes para garantir a produção de alimentos", pondera. Sendo o Cerrado responsável por parcela expressiva da produção nacional de soja, milho, algodão e carne bovina, qualquer alteração climática observada na região repercute diretamente sobre a segurança alimentar e a economia do país.
Questionado sobre como conciliar o aumento da produção de alimentos com a preservação ambiental, Gilmar reforça que é possível. "Produzir mais e preservar o meio ambiente não são objetivos opostos", afirma. O caminho, segundo ele, passa pelo conceito de intensificação sustentável da produção: produzir mais utilizando melhor os recursos já disponíveis, sem ampliar as áreas cultivadas. Nesse contexto, a pesquisa científica tem papel central, ao contribuir com tecnologias voltadas à recuperação de áreas degradadas, à melhoria da fertilidade do solo e ao aumento da eficiência no uso da água.
Tecnologias que fazem diferença no campo
Entre as soluções mais relevantes para tornar a agricultura mais resiliente, o professor destaca práticas já conhecidas pelos produtores, mas que ganham nova dimensão frente às mudanças climáticas. O sistema de plantio direto e a manutenção da palhada sobre o solo contribuem para conservar a umidade e reduzir a temperatura do terreno. A escolha de cultivares mais tolerantes ao déficit hídrico, o manejo adequado da fertilidade e o respeito ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) são igualmente fundamentais. "Quando possível, o uso da irrigação também é determinante", acrescenta o pesquisador. Ferramentas de agricultura digital, estações meteorológicas, sensores e sistemas de previsão climática completam o arsenal disponível para apoiar a tomada de decisão no campo e reduzir os riscos associados aos eventos extremos.
A ciência como aliada da segurança alimentar
O papel das universidades nesse cenário vai além da sala de aula. Na UniRV, pesquisas avaliam o comportamento das culturas em diferentes condições de clima, solo e manejo, buscando identificar práticas que aumentem a produtividade e reduzam os riscos de produção. O professor destaca ainda um padrão preocupante que vem sendo observado: em muitos anos, o volume total de chuva permanece próximo da média histórica, mas a distribuição ao longo do ano muda radicalmente. "É cada vez mais comum observar longos períodos sem chuva intercalados por eventos intensos concentrados em poucos dias", descreve. Essa condição, somada ao aumento das temperaturas, amplia os riscos de perdas agrícolas e dificulta o planejamento das operações no campo, reforçando a necessidade de pesquisas voltadas à adaptação dos sistemas produtivos.
O Brasil está preparado para o futuro?
Ao olhar para as próximas décadas, Gilmar acredita que o Brasil possui conhecimento técnico, instituições de pesquisa consolidadas e produtores altamente capacitados. No entanto, os desafios climáticos tendem a se intensificar, exigindo investimento contínuo em pesquisa, inovação, assistência técnica e tecnologias de adaptação. "A agricultura do futuro dependerá cada vez mais de informação, planejamento e gestão dos riscos climáticos. O desafio não será apenas produzir mais, mas produzir de forma mais eficiente, resiliente e adaptada às novas condições", conclui. O Cerrado, segundo ele, continuará sendo uma das regiões mais produtivas do planeta, desde que a capacidade de adaptação acompanhe o ritmo das transformações climáticas.
A UniRV está inserida nesse desafio tanto pela sua tradição em pesquisa quanto pela sua localização estratégica no coração do Cerrado. Para o Reitor, Prof. Dr. Alberto Barella Netto, a Universidade tem responsabilidade direta na construção de respostas científicas às mudanças climáticas. "Estamos no centro de uma das regiões mais produtivas do mundo e isso nos impõe um compromisso claro com a geração de conhecimento aplicado ao agro. Nossos programas de pós-graduação refletem essa vocação: o Mestrado e Doutorado em Produção Vegetal, o Mestrado Profissional em Direito do Agronegócio e Desenvolvimento e o Mestrado Profissional em Gestão com Ênfase em Sustentabilidade e Agronegócio são instrumentos concretos para formar pesquisadores e profissionais capazes de enfrentar os desafios que o campo terá pela frente", afirma.
Equipe ASCOM UniRV
Jornalista Jessica Bazzo – MTE 3194/GO
Arte: Eduardo Thomaz