A agricultura regenerativa deixou de ser um assunto restrito a especialistas e passou a fazer parte da conversa de produtores, empresas e pesquisadores. A ideia central é enfrentar ao mesmo tempo dois desafios, manter a produção de alimentos e reverter a degradação ambiental associada aos sistemas agrícolas intensivos. Em vez de apenas reduzir danos, a abordagem busca restaurar a saúde do solo e tornar as propriedades mais preparadas para secas, chuvas intensas e oscilações do clima.
O interesse crescente tem respaldo na ciência. Revisões científicas associam práticas como rotação de culturas, cobertura permanente do solo, sistemas agroflorestais e uso de composto a melhorias em indicadores como agregação do solo, disponibilidade de nutrientes e atividade microbiana. Ao mesmo tempo, o conceito ainda não tem um padrão universal, o que abre espaço para que o mesmo rótulo seja aplicado a práticas muito diferentes.
Para entender o que é essa prática, como ela impacta a produtividade e se compensa no bolso do produtor a médio e longo prazo, a professora da Faculdade de Agronomia, Dra. Rose Luiza Tavares, que lidera o Grupo de Pesquisa em Gestão Sustentável do Solo e Sequestro de Carbono da UniRV, explica o que é esse conceito que tem ganhado cada vez mais espaço no setor produtivo.
Sobre o que define a agricultura regenerativa, a professora explica: "A agricultura regenerativa ganha espaço como uma proposta para enfrentar dois desafios simultâneos, manter a produção de alimentos e reverter a degradação ambiental associada a sistemas agrícolas intensivos. Em vez de concentrar-se apenas em reduzir danos, a abordagem busca restaurar a saúde do solo, aumentar a sua biodiversidade e tornar as suas propriedades mais resilientes a secas, chuvas intensas e oscilações climáticas. Suas práticas mais frequentes incluem reduzir o preparo do solo, manter o solo sempre coberto, por meio de cobertura viva ou morta, diversificar os cultivos agrícolas, utilizar plantas de cobertura, fazer adubação orgânica e utilizar bioinsumos, entre outras estratégias. A ideia é favorecer processos biológicos, como a presença de raízes ativas, a atividade dos microrganismos, a ciclagem de nutrientes e a maior capacidade de retenção de água."

Ao tratar do papel do solo e das pesquisas na região, a docente destaca: "O solo está no centro dessa estratégia. Quando manejado de forma contínua, com pouca cobertura vegetal e preparo intensivo, ele pode perder matéria orgânica, sofrer erosão e apresentar menor capacidade de armazenar água. Sistemas regenerativos procuram reconstruir essa estrutura ao longo do tempo. Nesse contexto, o Grupo de Pesquisa em Gestão Sustentável do Solo e Sequestro de Carbono da UniRV vem desenvolvendo pesquisas voltadas à avaliação de práticas de manejo que contribuem para a conservação e recuperação da qualidade do solo, a dinâmica da matéria orgânica, o armazenamento de carbono e a sustentabilidade dos sistemas agrícolas, especialmente nas condições do Cerrado. Revisões científicas associam práticas como rotação de culturas, cobertura permanente do solo, sistemas agroflorestais e uso de composto a melhorias em indicadores como agregação do solo, disponibilidade de nutrientes e atividade microbiana. Pesquisas realizadas em diferentes sistemas agrícolas também buscam compreender como essas práticas alteram os atributos físicos, químicos e biológicos do solo e contribuem para sua capacidade de sustentar a produção ao longo do tempo."
Para o produtor rural, segundo a professora, os ganhos e os desafios caminham juntos. "Para os agricultores, a promessa é reduzir a dependência de insumos externos e ampliar a estabilidade produtiva. Em áreas sujeitas à estiagem, por exemplo, solos com mais matéria orgânica tendem a apresentar maior capacidade de retenção de água. A diversificação também pode diminuir a vulnerabilidade a pragas e a perdas causadas por eventos climáticos extremos. No entanto, a transição exige planejamento, conhecimento técnico e, muitas vezes, investimentos iniciais em sementes de cobertura, maquinário ou assistência especializada."
Quando o assunto é o clima, a professora pede cautela. "A agricultura regenerativa também é frequentemente apresentada como aliada no combate às mudanças climáticas, sobretudo por seu potencial de aumentar o carbono armazenado no solo. O Grupo de Pesquisa em Gestão Sustentável do Solo e Sequestro de Carbono também investiga essa relação, avaliando o armazenamento e a dinâmica do carbono em diferentes sistemas de manejo e sua relação com a qualidade do solo. Mas é necessário cautela, pois os resultados variam conforme o clima, o tipo de solo, a cultura, o grau de degradação prévio e o tempo de adoção das práticas. Não é correto tratar o sequestro de carbono no solo como uma solução automática ou permanente para as emissões agrícolas."
A professora também aponta a falta de critérios claros como um dos principais entraves. "Outro desafio é medir resultados. Como não existe um padrão universal para definir agricultura regenerativa, diferentes empresas, produtores e organizações podem usar o mesmo rótulo para práticas bastante distintas. Para evitar que o conceito se torne apenas uma estratégia de marketing, pesquisadores defendem indicadores verificáveis, como qualidade do solo, biodiversidade, uso de água, rentabilidade e condições de trabalho no campo."
Por fim, Rose resume o que está em jogo para o futuro do setor. "Na agricultura regenerativa, a lavoura deixa de ser vista apenas como um espaço de extração de produtividade e passa a ser tratada como parte de um ecossistema. Seu avanço dependerá de políticas de crédito, assistência técnica e pesquisa de longo prazo, capazes de gerar evidências sobre os benefícios e os limites das diferentes práticas de manejo para cada realidade agrícola."
Prof. Dra. Rose Luiza Moraes Tavares é engenheira agrônoma e professora da Faculdade de Agronomia da Universidade de Rio Verde (UniRV) e atua no Programa de Pós-Graduação em Produção Vegetal, na área de Ciência do Solo. Sua atuação científica concentra-se no manejo e conservação do solo. É líder do grupo de pesquisa "Gestão Sustentável do Solo e Sequestro de Carbono", desenvolvendo estudos relacionados ao estoque e sequestro de carbono, emissões de CO₂, qualidade física e microbiológica do solo e manejo de sistemas agrícolas. Coordena projetos de pesquisa financiados pelo CNPq e pela FAPEG e atua na formação de estudantes de graduação, mestrado e doutorado.
Equipe Ascom UniRV
Jornalista Vanderli Silvestre, MTB 4126/GO
Arte: Rogério Guimarães