A proposta de redução de cinco dias no vazio sanitário da soja em Goiás, que antecipa de 25 para 20 de setembro a liberação do plantio em algumas regiões do estado, tem gerado discussão entre entidades do setor produtivo e órgãos de defesa agropecuária. Para o professor da Faculdade de Agronomia da Universidade de Rio Verde (UniRV), Dr. Hércules Diniz Campos, a mudança pede atenção redobrada dos produtores, principalmente no que diz respeito ao manejo da ferrugem asiática.
Principal doença da soja e um dos maiores desafios fitossanitários da agricultura brasileira, a ferrugem asiática tem no vazio sanitário uma de suas principais barreiras. O período foi criado justamente para interromper o ciclo de sobrevivência do fungo causador da doença durante a entressafra. “A ferrugem asiática é uma doença altamente destrutiva e com grande potencial epidêmico. O vazio sanitário tem como principal objetivo eliminar as plantas voluntárias de soja, as chamadas tigueras, que podem servir de hospedeiras para o fungo nesse intervalo entre safras”, explica.
O fungo Phakopsora pachyrhizi só sobrevive em plantas vivas, por isso, segundo o professor, eliminar essas plantas durante o vazio sanitário reduz a presença de inóculo no ambiente e ajuda no manejo da doença já na safra seguinte.
Chuvas adiantadas abrem caminho para o plantio
A antecipação do fim do vazio sanitário tem relação direta com o volume de chuvas já registrado neste início de safra. Em algumas regiões, principalmente no sudoeste goiano, onde o plantio tradicionalmente começa mais cedo, as condições já permitem o início da semeadura.
Ainda assim, o pesquisador pondera que as chuvas não estão distribuídas de forma uniforme pelo estado, e que cada produtor precisa avaliar as condições da própria área antes de decidir pelo plantio. “Nossa região costuma reunir condições para plantar mais cedo, mas existem diferenças importantes entre as regiões produtoras. É preciso acompanhar o clima e tomar decisões com responsabilidade”, afirma.
O manejo é que vai fazer a diferença
O professor Hércules avalia que o risco de aumento da ferrugem em razão apenas dos cinco dias a menos de vazio sanitário é baixo. O que vai pesar, segundo ele, é a forma como os produtores conduzirão o manejo ao longo da safra, com uso de fungicidas registrados e eficazes, associação de diferentes mecanismos de ação, respeito aos intervalos entre aplicações e início das pulverizações no momento certo.
A maior preocupação do professor está em outro ponto: lavouras plantadas mais cedo podem se tornar fonte de inóculo para as áreas semeadas depois, especialmente num cenário em que o plantio deve se estender até dezembro em algumas regiões. “Os primeiros plantios precisam ser conduzidos com muito cuidado. Se houver falhas no manejo, essas áreas podem favorecer a multiplicação do fungo e aumentar o risco para quem for semear mais tarde”, explica.
Clima ainda é fator decisivo
O comportamento da ferrugem asiática ao longo da safra também vai depender das condições ambientais: umidade elevada, molhamento foliar e temperaturas favoráveis são combinações que ajudam a doença a avançar. “A evolução da ferrugem depende muito do clima. Se as chuvas forem mais escassas ou irregulares, o ambiente tende a ficar menos favorável à doença. Já em cenários de maior umidade, a atenção dos produtores precisa ser redobrada”, observa.
Na avaliação do professor, a antecipação do plantio pode ser uma boa oportunidade, sobretudo para quem trabalha com irrigação, desde que venha acompanhada de planejamento e responsabilidade técnica. “A redução do vazio sanitário, por si só, não representa um grande risco. O que vai definir o resultado da safra são as decisões tomadas dentro de cada propriedade”, conclui.
Atenção também aos cuidados no plantio
Além do manejo da ferrugem, o início da semeadura exige atenção a uma série de outros fatores técnicos. É o que destaca o Prof. Dr. Guilherme Braga Pereira Braz, também da Faculdade de Agronomia da UniRV. “Antes de iniciar o plantio, é importante que o produtor esteja atento a alguns pontos que podem fazer a diferença ao longo do desenvolvimento da cultura. O primeiro deles é o preparo adequado da área, com o controle das plantas daninhas, a análise do solo e o planejamento da correção e da adubação”, orienta.
Segundo Guilherme, a escolha de cultivares adaptadas às condições da região e o respeito à janela ideal de semeadura também são determinantes para o desempenho da lavoura. Ele reforça ainda que a qualidade das sementes e a regulagem adequada dos equipamentos merecem atenção especial nesse período. “Contar com a orientação de um profissional habilitado, como o engenheiro agrônomo, contribui para um planejamento mais adequado e para decisões técnicas mais assertivas ao longo do desenvolvimento da cultura”, finaliza.
Para o Reitor da UniRV, Prof. Dr. Alberto Barella Netto, a Universidade tem um papel estratégico na produção e na difusão de conhecimento voltado ao desenvolvimento do agronegócio. Segundo ele, por estar inserida em uma das principais regiões produtoras do país, a Instituição busca contribuir com pesquisas, análises e orientações técnicas que auxiliem produtores e profissionais na tomada de decisões cada vez mais qualificadas. O Reitor destaca ainda que a Faculdade de Agronomia possui uma trajetória consolidada na formação de profissionais e na geração de conhecimento aplicado às demandas do campo, fortalecendo a conexão entre ciência e prática. “O agronegócio é um dos grandes motores do desenvolvimento regional e nacional. Por isso, a UniRV tem o compromisso de contribuir com esse setor por meio do ensino, da pesquisa e da extensão. Quando compartilhamos conhecimento técnico e científico com a sociedade, cumprimos nossa missão de aproximar a Universidade das necessidades do campo e de colaborar para uma agricultura cada vez mais eficiente, sustentável e preparada para os desafios do futuro”, ressalta.
Equipe ASCOM UniRV
Jornalista Jessica Bazzo – MTE 3194/GO
Arte: Vinicius Macedo