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Calor urbano: por que as cidades parecem mais quentes?

Publicado em: 20-08-2026
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 Em dias de calor intenso, a temperatura parece ainda maior entre prédios, ruas e calçadas. Em alguns locais, atravessar uma área asfaltada, esperar em um ponto de ônibus sem sombra ou caminhar por uma via com pouca arborização pode transformar uma temperatura já elevada em uma experiência de muito desconforto térmico.

A explicação para esse fenômeno não está apenas nos termômetros. A forma como as cidades são construídas, ocupadas e planejadas interfere diretamente na temperatura e na sensação de calor sentida pela população.

Segundo a Professora Ma. Tatiana Pinazo, asfalto, concreto, excesso de impermeabilização do solo, pouca arborização e edificações que dificultam a circulação dos ventos são alguns dos elementos que contribuem para tornar as cidades mais quentes. Do ponto de vista da Arquitetura e do Urbanismo, pensar no conforto térmico exige olhar para além da previsão do tempo e compreender como as escolhas feitas no crescimento das cidades interferem no microclima urbano.

A Professora, explica que esse conjunto de fatores está diretamente relacionado ao fenômeno conhecido como ilha de calor urbana. “O aumento da sensação de calor nas cidades não depende apenas da temperatura do ar, mas também da forma como o espaço urbano é ocupado. Asfalto, concreto, impermeabilização excessiva, pouca arborização e construções que dificultam a circulação dos ventos contribuem para o aquecimento do ambiente”, destaca.

Durante o dia, superfícies como ruas asfaltadas, calçadas e edificações absorvem grande quantidade de radiação solar. Parte desse calor fica armazenada nos materiais e é liberada lentamente ao longo das horas seguintes. Por isso, mesmo depois que o sol se põe, determinadas regiões continuam quentes.

“Materiais como asfalto, concreto e vidro têm alta capacidade de absorver calor durante o dia e baixa capacidade de liberá-lo rapidamente. À noite, essas superfícies continuam irradiando o calor armazenado horas antes, impedindo o resfriamento natural do ar”, explica a Professora.

Esse efeito ajuda a explicar por que áreas densamente urbanizadas podem apresentar temperaturas superiores às de regiões rurais ou mais arborizadas. Segundo a análise da Professora, a diferença pode chegar a 5°C a 10°C em comparação com áreas verdes próximas.

No cotidiano, a percepção desse fenômeno é ainda mais evidente. Pedestres ficam expostos ao calor emitido pelo asfalto, pelas calçadas e pelas fachadas aquecidas. Em áreas sem sombra, a sensação térmica pode ser muito maior do que a temperatura registrada pelos termômetros.

Quando se fala em cidades mais frescas, a arborização ocupa um papel fundamental. As árvores oferecem sombra, reduzem a incidência direta do sol sobre superfícies urbanas e contribuem para o resfriamento do ambiente por meio da evapotranspiração. “A falta de arborização significa também a perda de um importante mecanismo natural de resfriamento. Por meio da sombra e da evapotranspiração, as árvores ajudam a reduzir as temperaturas superficiais e melhorar o conforto térmico”, ressalta Tatiana.

A diferença é sentida especialmente em espaços de grande circulação, como calçadas, praças e pontos de ônibus. Em locais sem sombreamento vegetal, a exposição prolongada ao sol pode provocar intenso desconforto térmico.

Para a Arquitetura e o Urbanismo, portanto, plantar árvores não deve ser entendido apenas como uma questão estética. A arborização faz parte da infraestrutura necessária para construir cidades mais saudáveis e confortáveis.

O problema, segundo a professora, não está simplesmente na verticalização ou no crescimento das cidades. O principal desafio é crescer sem considerar as características climáticas do local. Entre os problemas que podem agravar o desconforto térmico estão a retirada excessiva da vegetação, a impermeabilização do solo, a redução das áreas verdes e a ocupação urbana sem planejamento adequado. “A cidade precisa considerar orientação solar, ventilação, afastamentos, densidade, arborização e espaços livres na definição de sua ocupação”, pontua.

A disposição dos prédios também interfere na circulação dos ventos. Dependendo da forma como as edificações são construídas, o ar pode circular com mais dificuldade, contribuindo para a retenção do calor. A professora destaca que elementos como altura e disposição das construções, largura das ruas, afastamentos, orientação solar, arborização e áreas livres precisam ser considerados para favorecer a ventilação e o equilíbrio do microclima urbano.

O impacto das ilhas de calor também revela uma questão social. O acesso à infraestrutura verde não é igual em todos os bairros. De acordo com Tatiana, regiões mais valorizadas tendem a concentrar maior arborização, áreas verdes e estruturas de sombreamento. Já em muitas periferias, há mais áreas impermeabilizadas, menos árvores e habitações com menor conforto térmico.

“Essa desigualdade socioespacial faz com que populações de menor renda estejam mais expostas ao calor, tanto nos espaços públicos quanto dentro de suas próprias casas, ampliando a vulnerabilidade climática e os impactos sobre a saúde”, afirma.

Nesse sentido, investir em infraestrutura verde nas áreas mais vulneráveis também é uma questão de justiça ambiental e qualidade de vida. As soluções passam por diferentes escalas, desde a escolha dos materiais utilizados em uma construção até o planejamento do crescimento urbano.

Entre as estratégias apontadas pela professora estão o uso de pavimentos permeáveis e drenantes, telhados e pavimentos com maior refletância solar, telhados verdes e tintas claras ou revestimentos capazes de refletir uma parcela maior da radiação solar. “O objetivo não é substituir um material isoladamente, mas combinar soluções construtivas e infraestrutura verde para reduzir o aquecimento durante o dia e favorecer o resfriamento urbano”, explica.

No curto prazo, intervenções como arborização de ruas e espaços públicos, criação de áreas de sombra, melhoria dos pontos de ônibus, implantação de jardins, recuperação de praças e redução de grandes superfícies impermeabilizadas podem contribuir para melhorar o conforto térmico. No médio e longo prazo, o desafio envolve a construção de uma rede de infraestrutura verde, conectando parques, praças, arborização viária e áreas permeáveis, além da incorporação de critérios de conforto térmico à legislação urbana, explica a Professora.

Para a Professora Tatiana Pinazzo, é necessário avançar na atualização da legislação urbanística para que o crescimento da cidade esteja alinhado às novas demandas ambientais e climáticas. Entre os aspectos que podem ser considerados estão a permeabilidade do solo, a arborização, o sombreamento, a ventilação e o desempenho ambiental das edificações. “A cidade precisa ser orientada não apenas pela quantidade de área que pode ser construída, mas também pela qualidade ambiental dos espaços”, defende.

Para o Reitor, Professor Dr. Alberto Barella Netto, compreender os desafios climáticos das cidades é fundamental para pensar o desenvolvimento urbano de forma mais sustentável e voltada à qualidade de vida. “A Universidade tem o compromisso de produzir conhecimento e formar profissionais capazes de compreender os desafios do nosso tempo e propor soluções para eles. Discutir como o planejamento urbano influencia o conforto térmico e a qualidade de vida é também pensar em cidades mais humanas, sustentáveis e preparadas para o futuro”, comenta.
 
 
Equipe ASCOM
Jornalista Ana Júlia Sales
Arte: Eduardo Thomaz

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