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Saúde bucal pode determinar a saúde do corpo todo

Publicado em: 03-08-2026
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A boca nunca esteve isolada do resto do corpo. É a partir dessa premissa que o professor da Faculdade de Odontologia da UniRV, Dr. Frederick Khalil Karam, implantodontista e docente que atua diretamente na reabilitação oral de pacientes, analisa um retrato ainda preocupante da saúde bucal dos idosos brasileiros e projeta se a geração que vai chegar aos 80 anos com a própria dentição intacta já nasceu.

Segundo Frederick, a perda dentária em idosos não pode ser entendida apenas como consequência natural do envelhecimento. "Na prática clínica, observamos que ela está profundamente relacionada ao acesso tardio ao tratamento, às limitações econômicas, à baixa escolaridade e à dificuldade de continuidade do cuidado odontológico ao longo da vida", afirma.

Para o professor, os números mais recentes mostram que o Brasil avançou, mas ainda carrega um modelo historicamente mutilador, no qual a extração dentária foi, por muito tempo, a principal alternativa oferecida aos pacientes. "Quando o idoso chega à reabilitação com poucos dentes remanescentes ou completamente edêntulo, não estamos tratando apenas uma deficiência estética. Estamos diante de dificuldades mastigatórias, alterações nutricionais, insegurança para falar e sorrir, redução da autoestima e prejuízos importantes na convivência social e na qualidade de vida", explica.

É nesse ponto que a pergunta sobre a influência da saúde bucal na saúde geral se conecta diretamente à experiência clínica do professor. "Na minha experiência com Implantodontia e reabilitações protéticas, é muito marcante perceber como a recuperação da função e do sorriso pode transformar a vida de uma pessoa", diz. Ainda assim, ele reconhece que tratamentos reabilitadores mais complexos permanecem distantes de grande parte da população, o que o leva a defender que as políticas públicas não se limitem à prevenção em crianças e adultos jovens, mas incluam efetivamente o idoso, ampliando o acesso a tratamentos conservadores, próteses bem executadas, manutenção periódica e, nos casos indicados, reabilitações implantossuportadas.

O professor também destaca o papel das universidades e clínicas-escola nesse cenário. Para ele, instituições como a UniRV podem contribuir tanto com a produção de evidências científicas quanto com a oferta de atendimento supervisionado, formação de profissionais qualificados e desenvolvimento de modelos assistenciais mais acessíveis. “A ciência produzida dentro da Universidade pode revelar desigualdades concretas e orientar ações capazes de gerar impacto direto na população, a saúde bucal é saúde integral e envelhecer sem dentes, sem capacidade mastigatória e sem acesso à reabilitação não deve ser tratado como algo inevitável”, salienta.

Ainda conforme Frederick, o enfrentamento desse problema exige planejamento público, prevenção ao longo de toda a vida e compromisso com um cuidado odontológico mais humano, conservador e socialmente justo. Se a geração que chegará aos 80 anos com a própria dentição intacta ainda não nasceu, na visão do professor isso não é uma fatalidade biológica, é uma questão de política pública, de acesso e de tempo de tratamento acumulado ao longo da vida.
 
A análise do Dr. Frederick tem como pano de fundo um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Rio Verde (UniRV), em parceria com a Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC). O artigo "Edentulismo, perda dentária severa e ausência de dentição funcional em pessoas idosas no Brasil: prevalência e desigualdades sociais na Pesquisa Nacional de Saúde Bucal 2023" traça um retrato atualizado da saúde bucal da população idosa brasileira, com base em dados do Ministério da Saúde.

O trabalho é assinado pelo Dr. Renato Canevari Dutra da Silva, pela Dra. Heloísa Silva Guerra e pelo Pró-Reitor de Pós-Graduação, Dr. Elton Brás Camargo Júnior, da UniRV, em colaboração com a Dra. Fernanda de Oliveira Meller, Cleidiane Aparecida de Quadra e o Dr. Antônio Augusto Schäfer, da UNESC.
Com base em uma amostra de 9.746 idosos de 65 anos ou mais, a equipe identificou que, embora o edentulismo total tenha diminuído em relação aos levantamentos de 2003 e 2010, os números ainda preocupam:
 
  • 36,5% dos idosos brasileiros não possuem nenhum dente;
  • 48,1% apresentam perda dentária severa, com até oito dentes remanescentes;
  • 72,9% vivem sem dentição funcional (menos de 21 dentes) — a condição mais comum entre os avaliados, que compromete diretamente a mastigação, a nutrição e a qualidade de vida.
 
Para os pesquisadores, esses números não podem ser explicados apenas pelo envelhecimento natural, pois refletem barreiras estruturais de acesso à saúde. A escolaridade foi o fator de maior impacto identificado: idosos sem instrução formal têm 3,62 vezes mais chance de serem edêntulos do que aqueles com 12 anos ou mais de estudo. As mulheres apresentaram maior prevalência de todos os desfechos negativos avaliados em comparação aos homens, enquanto idosos de cor parda tiveram maior prevalência de perda dentária severa e ausência de dentição funcional do que idosos brancos.

A geografia também pesa nessa desigualdade: morar no interior está associado a maior prevalência de edentulismo em comparação às capitais, e a ausência de dentição funcional é mais frequente nas regiões Norte e Nordeste. Chamou atenção ainda o fato de que beneficiários de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, apresentaram piores indicadores de saúde bucal, evidenciando a sobreposição entre vulnerabilidade econômica e social.

Diante desse cenário, os autores do estudo defendem que é urgente repensar o modelo de atenção odontológica oferecido à população idosa no Brasil, hoje ainda centrado na extração dentária, o chamado modelo assistencial mutilador. Segundo a equipe, é preciso ampliar o acesso a tratamentos conservadores, à reabilitação protética e a cuidados continuados de saúde bucal, com atenção especial às populações mais vulneráveis e às áreas remotas do país.
 
Para o Reitor da UniRV, Prof. Dr. Alberto Barella Netto, a pesquisa reforça o compromisso da Universidade com a produção de conhecimento científico voltado às necessidades reais da sociedade. Segundo ele, o estudo mostra como a ciência pode subsidiar políticas públicas mais justas, especialmente quando aponta desigualdades que muitas vezes passam despercebidas no debate sobre saúde da população idosa.

O estudo integra a Pesquisa Nacional de Saúde Bucal 2023, iniciativa do Ministério da Saúde, e consolida a parceria de pesquisa entre instituições do Centro-Oeste e do Sul do Brasil na investigação de temas com impacto direto na saúde pública nacional.
 
Equipe ASCOM UniRV
Jornalista Jessica Bazzo – MTE 3194/GO
Arte: Vinicius Macedo 

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