O autismo ganhou nos últimos anos, uma presença grande no debate público, nas conversas, na política e na mídia em geral. Diante dessa visibilidade, era de se esperar que a produção científica sobre o tema acompanhasse o mesmo ritmo em todos os níveis de ensino. Ainda são poucas as pesquisas sobre autismo no ensino superior, e, entre as que existem, a maioria se volta para o estudante autista, e raramente para o professor que o recebe em sala de aula.
É nesse cenário que uma tese de doutorado em Educação está sendo desenvolvida pela professora dos cursos de Administração e Marketing da Universidade de Rio Verde (UniRV), Kerla Cristina Parreira Lima. A pesquisa no âmbito do programa de doutoramento em Educação, fruto de um convênio da UniRV com a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), apresenta parâmetros sobre a formação do professor para a inclusão.
Segundo a Professora, a pesquisa propõe uma mudança de perspectiva. “Em vez de perguntar como o estudante com autismo se adapta à universidade, ela volta o olhar para o outro lado da relação e investiga como o professor universitário se prepara para acolher e ensinar esse estudante. A ideia é entender melhor o que o docente vive nesse processo e o que pode ajudá-lo a se sentir mais seguro diante de um desafio que, para muitos, ainda é novo.”
Kerla ressalta que pesquisar a formação do professor para a inclusão é reconhecer que garantir o acesso não basta. Mas é preciso preparar quem recebe esses estudantes, para que a permanência e a aprendizagem sejam de fato possíveis, e para que esse caminho não se torne uma fonte de sofrimento para o acadêmico com TEA. “A Lei Brasileira de Inclusão, de 2015, ampliou o acesso de pessoas com deficiência ao ensino superior e tornou cada vez mais frequente, nas salas de aula das universidades, a presença de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Com ela, chegou também uma pergunta para a qual muitos professores não foram preparados durante sua formação: como ensinar, de fato, esses estudantes? Garantir a matrícula é uma conquista importante. Garantir que a aprendizagem aconteça é um trabalho que se constrói todos os dias, no encontro entre professor e aluno.”
A doutoranda menciona que a UniRV já vem construindo esse caminho. “A Universidade conta com o Atendimento Educacional Especializado (AEE), cuja função é identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade para os estudantes que apresentam algum tipo de dificuldade de aprendizagem. Podem ser atendidos os estudantes com diagnóstico de autismo, TDAH ou outros transtornos que afetam o processo de aprendizagem. Além do apoio oferecido aos estudantes, os professores recebem capacitação pedagógica sobre como acolher esses universitários, com vistas à sua inclusão social e cidadã. A solicitação de atendimento pode ser feita pelo SEI, na aba Secretaria On-line, em Novo Requerimento, selecionando a opção "Atendimento Educacional Especializado", com o laudo de um profissional de saúde anexado.”
Segundo Kerla, a proposta não é apontar o que falta, mas somar, abrindo espaço para o debate e buscando, junto com os professores, formas de aperfeiçoar ainda mais o acolhimento e o ensino. “No centro da investigação está uma ideia que a pesquisadora chama de formação "(de)formativa". Ela recusa a lógica do manual pronto, da expectativa de que exista uma cartilha sobre como lidar com alunos autistas. A aposta é outra: formar o professor para a inclusão é, antes de tudo, um convite para rever o próprio jeito de ensinar, e não apenas para acrescentar novas técnicas ao que já se faz.”
Kerla completa que o estudo adota uma abordagem qualitativa e toma a própria UniRV como campo de pesquisa, tendo os professores da Instituição como parceiros de conversa. “Mais do que descrever uma realidade, a tese quer devolver algo concreto à universidade, propondo caminhos de formação que ajudem a fortalecer, a partir de dentro, uma cultura cada vez mais acolhedora e inclusiva.” finaliza.
Equipe Ascom UniRV
Jornalista Vanderli Silvestre - CRP 4126/GO
Arte: Vinicius Macedo