Após quase duas décadas de redução contínua no número de fumantes, o Brasil volta a registrar aumento no consumo de produtos derivados do tabaco. Dados do Observatório de Saúde Pública da Umane, com base no sistema de vigilância Vigitel, mostram que a proporção de fumantes adultos nas capitais brasileiras caiu de 15,7% em 2006 para 9,3% em 2023, uma redução de 40,8% no período.
Entretanto, números mais recentes do Ministério da Saúde apontam uma mudança preocupante nesse cenário. Em 2024, o percentual de fumantes voltou a crescer, passando de 9,3% para 11,6% da população adulta, um aumento de aproximadamente 25% em apenas um ano. Entre os fatores associados a essa retomada estão a popularização dos dispositivos eletrônicos para fumar, conhecidos como vapes, especialmente entre os jovens.
Segundo a Professora Ma. Ana Cleides Pereira, da Faculdade de Enfermagem da Universidade de Rio Verde, o crescimento do tabagismo nessa faixa etária está diretamente relacionado à forma como esses produtos são apresentados.
"O crescimento do tabagismo entre os jovens está muito relacionado à variedade de sabores dos vapes, ao design moderno desses dispositivos, à curiosidade de experimentar e à falsa ideia de que eles não fazem mal à saúde. Soma-se a isso a influência dos amigos e o desejo de experimentar coisas novas. Infelizmente, muitos jovens não percebem que esses dispositivos também contêm nicotina e outras substâncias capazes de causar dependência química desde o primeiro uso", explica.
Além da influência social, questões emocionais também contribuem para o aumento do consumo de nicotina. De acordo com a docente, muitas pessoas recorrem ao cigarro como uma tentativa de aliviar sintomas de ansiedade e depressão, embora o efeito seja apenas temporário.
"Existe uma relação importante entre tabagismo e saúde mental. Muitas pessoas acreditam que fumar ajuda a aliviar o estresse, a ansiedade ou a tristeza, mas esse efeito é passageiro. Logo após o consumo, surge novamente a necessidade de fumar, reforçando a dependência. Com o tempo, a pessoa já não consegue interromper o uso sozinha e, muitas vezes, necessita de acompanhamento profissional e tratamento medicamentoso", esclarece a Professora.
Apesar de serem frequentemente divulgados como uma alternativa menos nociva ao cigarro convencional, os cigarros eletrônicos também oferecem riscos significativos à saúde. A Professora explica que a ausência da fumaça produzida pela queima do tabaco não significa ausência de danos ao organismo.
"É um equívoco acreditar que os cigarros eletrônicos são seguros. Além da nicotina, eles liberam diversas substâncias químicas potencialmente tóxicas. Os produtos derivados do tabaco contêm milhares de compostos nocivos que podem provocar danos irreversíveis, principalmente aos pulmões, além de aumentar o risco de doenças cardiovasculares e comprometer o desenvolvimento cerebral dos jovens. Outro agravante é que a comercialização desses dispositivos continua proibida pela Anvisa", reforça.
A Professora destaca que muitas pessoas só percebem a gravidade da dependência quando surgem sintomas ou problemas de saúde mais sérios.
"Na maioria das vezes, o fumante só reconhece que perdeu o controle quando já apresenta algum problema de saúde ou quando percebe que não consegue ficar sem fumar. Não é necessário esperar esse momento. Assim que houver dificuldade para controlar o consumo ou desejo de abandonar o cigarro, é importante procurar ajuda profissional.
A dependência de nicotina é uma doença e, muitas vezes, exige acompanhamento especializado", ressalta.
O tratamento para cessação do tabagismo é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O atendimento é realizado nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e envolve uma equipe multiprofissional, composta por médicos, enfermeiros, psicólogos e outros profissionais.
"O SUS disponibiliza atendimento gratuito para quem deseja parar de fumar. O paciente passa por avaliação da equipe de saúde e pode participar de grupos de apoio, rodas de conversa, acompanhamento psicológico e, quando necessário, utilizar medicamentos e terapias de reposição de nicotina, como adesivos. O apoio da família também faz toda a diferença durante esse processo", afirma a Professora.
Diante do aumento do tabagismo, especialmente entre os jovens, especialistas reforçam que a prevenção continua sendo a principal estratégia para evitar a dependência e reduzir os impactos do cigarro sobre a saúde da população.
Para o Reitor, Professor Dr. Alberto Barella Netto, levar informação científica à sociedade também faz parte da missão da Instituição. "A UniRV acredita que a educação em saúde é uma das principais ferramentas de prevenção. Ao compartilhar essas orientações, nossos professores contribuem para conscientizar a população sobre os riscos do tabagismo e da dependência química, incentivando escolhas mais saudáveis e fortalecendo o compromisso da Universidade com a promoção da saúde e da qualidade de vida da comunidade”, comenta.
Equipe ASCOM
Jornalista Ana Júlia Sales
Arte: Vinícius Macedo