No próximo dia 8 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher, data oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975 e que completa 51 anos em 2026. Se, por um lado, houve avanços significativos no que diz respeito ao direito ao voto, à participação política e ao acesso à educação, onde as mulheres já são maioria no Ensino Superior (na UniRV, mais de 60% dos acadêmicos são mulheres), além de conquistas legais como a Lei Maria da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015), por outro, os desafios cotidianos ainda demandam atenção científica e institucional.
Refletindo esse cenário de luta e cuidado, a dissertação de mestrado da docente da UniRV, Rosilene da Silva Ribeiro, dá visibilidade à relação entre a violência de gênero e o desenvolvimento de transtornos mentais. A pesquisa, que contou com a coorientação do Pró-Reitor de Pós-Graduação da UniRV, professor Dr. Elton Brás Camargo Júnior, revelou que muitas vítimas de abuso sequer reconheciam as agressões sofridas no dia a dia.
O trabalho, apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Goiás (UFG) e intitulado “Violência baseada em gênero e transtornos mentais: experiência de mulheres atendidas em um Centro de Atenção Psicossocial”, aponta a urgência de qualificar profissionais de saúde. A motivação para o estudo nasceu da experiência prática da docente como enfermeira em um hospital de trauma em Rio Verde.
Para dimensionar o problema, a professora aplicou o protocolo da Organização Mundial da Saúde (OMS) com 94 mulheres atendidas em um Caps no município. O resultado apontou que 100% das entrevistadas já haviam sido vítimas de violência psicológica. O dado causou impacto na pesquisadora, que inicialmente previa um índice em torno de 70%. “Esse número absoluto reflete o cenário de mulheres com transtornos graves e persistentes, em processos de adoecimento mental profundo, nos quais insultos e humilhações acabam sendo normalizados”, explica Rosilene.
A análise crítica, realizada por meio de questionários e grupos focais, revelou uma barreira perceptiva: enquanto agressões físicas ou sexuais são identificadas (ainda que minimizadas), a violência emocional é permeada pela dúvida. Segundo a docente, ao serem questionadas sobre o objetivo da pesquisa, muitas afirmavam que seus relatos "não serviriam", pois não se viam como vítimas. "O 'não' delas era um dado científico. Mas, ao detalharmos as situações de humilhação e ameaça, o 'não' deixava de existir e se transformava em um 'sim'”, pontua.
Para a pesquisadora, o não reconhecimento do abuso é fruto de uma sociedade que naturaliza o comportamento masculino ríspido como algo "esperado do homem". Ela alerta que essa é a raiz da misoginia que, atualmente, o Parlamento e o Congresso Nacional tentam criminalizar. “A tentativa de feminicídio não surge do nada, ela começa muito antes, na violência invisível que a mulher não percebeu”, ressalta a docente.
Como resposta prática a essa demanda, Rosilene agora avança para o doutorado com a proposta de um grupo terapêutico na Universidade de Rio Verde. O projeto busca conscientizar as participantes de que toda agressão, inclusive a moral, é violência, fortalecendo a rede de apoio local por meio do acolhimento especializado.
Ao unir o marco histórico do dia 8 de março à produção científica de impacto local, a docente da UniRV reitera que o combate à violência de gênero não se faz apenas com leis, mas com a quebra do silêncio e o fortalecimento da saúde mental feminina.
Equipe ASCOM UniRV
Jornalista Jessica Bazzo - MTE 3194/GO
Arte Rogério Guimarães
Com informações de Anna Paulla Soares do Jornal UFG